Acadêmicos do Xô Vira-Lata!

Almocei mais cedo, arrumei algumas coisas dentro da mochila, como algumas latinhas de cerveja, um óculos de sol e um elastiquinho pro cabelo e me troquei, pois sabia que o bloco devia sair às 16h da esquina da Rua Augusta com a Paranaguá, praticamente um quarteirão de casa. Os amigos decidiram ficar pelos blocos da Vila Madalena, mas eu decidi que ficaria aqui, pelo bairro que me acolheu desde que cheguei à selva de pedras. Como de costume, iria pra mais uma diversão sozinha.

Sabe aqueles dias em que você acorda e só quer ser feliz? E feliz leia-se ficar na rua, tomar uma dúzia de cervejas, ver mais gente na rua também e rir com os seus amigos. Sabe? A sensação é que todos que ali estavam procuravam a mesma simples coisa. O saldo do banco está no vermelho, a casa está precisando de uma faxina, meu carro quebrou, minha carreira estagnou, o relacionamento não vai muito bem. Mas e daí? Hoje eu vou atrás do bloco.

E é isso que interessa no carnaval afinal. Ou você queria estar, nesse momento, discutindo a tensão de uma possível terceira guerra mundial a se iniciar na Ucrânia? Ok, ok, nada funciona em nosso país antes do carnaval nem nossas vidas são tão belas como dos ucranianos. Eu já conheço esse discurso, tudo bem? Mas isso é problema da festa ou da nossa centenária vagabundagem? Sugiro que todos que são contra abram mão do vossos feriados prolongados e de vossas viagens a Fernando de Noronha como forma de repudio a esse absurdo que é essa festa mundana! Senta ali um minutinho, amigo, já falo com você.

O carnaval é nosso! É das riquezas mais humanas e naturais que temos no mundo e que, convenhamos, todos invejam. É o despir-se, figura e literalmente, de qualquer gravata maldita e só sorrir na rua. É suar, é rebolar, é abraçar, é fazer amor, é ouvir música alta, é jogar espuma no amigo, é se apaixonar pelo estranho, é o colorido. Sem espaços para complexos de corpo ou culturas… Nem de vira-latas.

Os mal humorados que me perdoem, mas eu amo o carnaval. Amo-o com as marchinhas, com os sambas-enredos, com o sambinha do Chico, com o axé, com o Lepo Lepo e o Beijinho no Ombro. Amo com os rebolados, com as crianças fantasiadas, com carros alegóricos, com os carros de som alto, os abadás e com os bêbados. Sem pulseirinha VIP, sem camarote ou filtro por renda. Com a nossa tristeza transbordada em alegria. “Deixei a dor em casa me esperando e brinquei e gritei e fui vestido de rei”…

O bloco foi sair só às 17h e nisso eu já havia esvaziado todas as minhas latinhas e subido e descido o quarteirão várias vezes. Sozinha, reparei que as senhorinhas moradoras do bairro estavam paradas na calçada, sorridentes. Que havia mais casais gays do que de costume na região e que as garotas de programa que vejo todos os dias por ali estavam entre amigas, com roupas comuns. Os travestis estavam tão bem montados como um destaque da avenida do Rio de Janeiro. Que as famílias que não puderam viajar fizeram do bloco a diversão. Que os moradores perdidos no mundo como eu se entendiam no balancinho do ombro e que os moradores de rua mexiam com todo mundo. A gente só queria sorrir feliz.

Foto 1 de Priscila Morales: http://www.flickr.com/photos/pgmorales/

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