Marcha da Família, o programão do fim de semana

Meus amigos mais velhos me contam até hoje como foi a experiência de poder ter estado naquele fim de jejum do Corinthians em 1977. Minha mãe vive relembrando sua época de curtir coisas como a Jovem Guarda de Roberto e Erasmo e os festivais de Chico, Caetano e Gil. Do outro lado tenho meu pai, que conta sobre Copas passadas e Beatles e Rolling Stones. De forma bem clichê, as vezes penso que nasci na época errada e como queria ter visto tantas coisas.

Daria para fazer uma lista de momentos e fatos que eu adoraria estar lá pra ver. Ou até pra viver, ser, fazer parte, por que não? Todo mundo tem. Aí a gente lê livros sobre o assunto, vê filmes, documentários e tenta matar nossa vontade dessa forma. Não à toa tenho Back to the Future entre os primeiros da minha listinha de paixões.

Eis que, no turbilhão de protestos e manifestações e discussões e Sherazades, essa nossa enorme vontade de viver o passado pode acontecer. Amigos, vejam só que maravilha, está de volta a Marcha da Família!

É de cair o cu da bunda.

marcha-da-familiaSe passaram 50 anos, oportunidade incrível de reviver os movimentos de 1964. Esse ano delicioso, quando todo mundo combatia os criminosos comunistas, quando o país dava início a uma era maravilhosa de regime militar e milagre econômico. Uma era nova e promissora, na qual todo mundo era livre e compartilhava ideias, debatia assuntos relevantes, fazia música e cultura livremente. Uma era na qual a desigualdade social foi quase erradicada, que o salário mínimo aumentou. Sem contar a controladíssima inflação no país e como esquecer da dívida externa que quase chegou a zero.

Era tão bom sair à rua sem ser perseguido, poder conversar com amigos sem ter a desconfiança de ser denunciado comunista, de ninguém invadir nossas casas, poder estar em um ambiente acadêmico com um livre pensar e pesquisar. Ninguém era torturado, a imprensa fazia seu papel independente, a constituição era respeitada rigorosamente bem como direitos políticos e civis. Era possível questionar tudo o que os Três Poderes faziam e mostrar que a população queria participar. Aliás, o Legislativo, Executivo e Judiciário nunca funcionaram tão bem. Vocês não se impressionam como naquela época tudo era ótimo e hoje tudo é um lixo?

Ah, que saudades. Poderia ficar aqui enumerando tudo o que tinha de maravilhoso naquela época. E poderemos reviver esse gostinho com a volta da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Chego a ficar emocionada, mal posso esperar.

Na verdade, amigos, me pego agora pensando. Tem coisas que ninguém precisa mesmo voltar ao tempo e sentir na pele para ver como era bom. Ou não.

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Sem frescura! É hora de cuidar da sua filha.

Eu já fui daquelas crianças que tudo lê e tudo quer saber o que significa. Um dia já perguntei para a minha mãe o que era um motel. Ela não deu a resposta mais transparente, mas também não mentiu: “É um lugar que namorados vão”.

Um dia também já vi um comercial de absorventes, os quais eu via no guarda-roupa da minha irmã, e perguntei o que era aquilo. Minha mãe ainda não contou todas as consequências da ausência ou presença da menstruação, mas me explicou que um dia me aconteceria, poderia sujar a minha roupa, mas seria sinal de que minha saúde estava boa e que era preciso conviver com aquilo.

Um dia eu transei pela primeira vez. Não sabia se devia ou não contar pra minha mãe e se teria que compartilhar como aconteceu, o que fiz ou o que senti. Não tive o diálogo mais liberal do mundo, mas me senti menos insegura: “Foi bom? Foi com alguém que você queria que fosse? Vocês usaram camisinha? Então fico feliz”.

Hoje, alguns bons anos depois de tudo isso, estou saudável, sem filhos, curto o sexo com o que ele tem de melhor, não me é um tabu, cuido de mim e do meu corpo. Ainda que de maneira pouco franca ou aberta, acho que aquelas conversas puderam fazer a diferença.

vacina-hpv-sus-2Aí me deparo com a notícia de que o SUS está oferecendo vacinas contra o HPV para meninas de 11 a 13 anos. O HPV está relacionado com o câncer de colo do útero, o terceiro tipo de câncer mais comum nas mulheres. Mesmo sabendo que eu devia usar camisinha desde a primeira transa, provavelmente eu não sabia, na época, o que era HPV.

Acontece que, na minha época, não era algo comum começar a vida sexual aos 13 ou 14 anos. Hoje parece que é. Até antes, vai lá saber. Ponto positivo, então, para o governo, que entendeu a necessidade desse tipo de prevenção e tomou medidas para diminuir os riscos da doença.

O que muito me espanta nessa história toda é ver que, por mais absurdo que pareça, há mães optando por NÃO vacinarem suas filhas. “Ah, mas se eu a vacinar, ela vai achar que pode transar sem camisinha”, “esse tipo de campanha é um incentivo para que minha filha inicie sua vida sexual mais cedo”, “vou ter que explicar sobre sexo quando levá-la para vacinar?” e mais diversas outras baboseiras. Estão todas convidadas a virem em casa para tomar um chá e bater um papinho com a minha mãe, ok?

O HPV não é a única doença que pode ser transmitida se não usar camisinha, aliás, existem dezenas delas e não há vacinas. Ninguém passa a ter um hábito por culpa de uma vacinação, oras bolas. Ou alguém aqui resolveu usar drogas e compartilhar sua seringa depois que tomou a vacina contra hepatite quando bebê ou criança? O HPV, como já falei a cima, pode causar câncer no colo do útero. Câncer! E você, mamãe, mais preocupada se sua filha vai meter do que com a saúde dela como um todo? O buraco é mais fundo, com o perdão do trocadilho.

Se você está adiando falar sobre vida sexual com sua filha pré-adolescente, você está falhando no seu papel de mãe e desculpe jogar isso na sua cara assim. Se você até pensa em falar e nunca soube como, eis a oportunidade. Com idades para serem mães, todo mundo já tem coragem de dar e ninguém tem coragem de falar? Libertem-se e cuidem de suas princesas.

A gente ainda não entende nada sobre o Dia Internacional da Mulher…

– Ah, é mulher, nem tenta explicar…
– Nossa, ela deu pro cara no primeiro encontro?
– Esporte feminino não é a mesma coisa…
– Caramba, você frequenta estádio sozinha?
– Usa minissaia e depois reclama que é estuprada!
– Chamaram ela de vaca? Também né, olha o tamanho do vestido!
– Nossa, você não pretende ter filhos? Mas e seus instintos de mulher?
– Sério que você nunca sonhou em casar?
– Mau humor é falta de homem!
– Você viu ele com outra? E não socou a cara da vadia?
– Que feio, você tão linda falando palavrão!
– Só podia ser mulher pra estar dirigindo desse jeito!
– Ela tem atitudes de mulherzinha.
– Abre o olho, só é seu amigo porque quer te comer.
– Nossa, ela se masturba? Que absurdo!
– Ele espalhou fotos íntimas dela? Também né, mandou foto, tá pedindo!
– Mulher não pode falar de sexo tão abertamente assim, é feio.
– 30 anos e não casou ainda? Vai ficar pra titia!
– 20 anos mais velho que ela? Deve ser rico!
– Seu irmão pode porque ele é homem!
– Cuidado hein? A beleza da mulher tem prazo de validade!
– Nossa, mas você é muito bonita para estar aqui sozinha!
– Ah, mulher que apanha é porque gosta!
– Seu decote me tira a atenção.
– Você ganha mais que seu marido? E ele aceita bem isso?
– Mulher muito bêbada é feio!
– O que você está fazendo sozinha nessa roda de homens no bar?
– Vocês não entendem nada de futebol!
– Mulher não pode tomar a iniciativa.
– Gosta muito de futebol, só pode ser Maria chuteira!
– Você vai casar e não sabe cozinhar?
– Presidente mulher? Não sabe nem administrar uma cozinha!
– Ela não se arruma e quer arrumar namorado como?
– Ela não sai porque o namorado não deixa.
– Deixa que eu faço, isso é coisa de homem.
– Nossa, que casa suja! Você está precisando arrumar uma namorada.
– Seu marido te ajuda com as tarefas de casa? Tirou a sorte grande, hein amiga?
– Mulher minha não faz isso!
– Ela tá grávida? Quem mandou ficar dançando funk!
– Se ela não emagrecer, não vai arranjar um namorado nunca!
– Ou é bonita ou é inteligente.
– Só é lésbica porque nenhum homem pegou direito!
– Feminismo é falta de homem!
– Ele traiu ela, mas dizem que ela não cumpriu com o papel de mulher.
– Nossa, ela é mulher e negra. Como conseguiu chegar nesse cargo?
– Ah, ela é diferente né? Ela é mulher de família.

E que atire a primeira pedra quem nunca falou, pensou ou ouviu algo parecido com alguma dessas frases, nós mulheres e vocês homens. O machismo está silenciosamente em todos nós. E é por isso que a gente ainda está muito longe de entender mesmo o Dia Internacional da Mulher.

Sejamos putas, sejamos santas, sejamos livres, todo dia. Nuas e cobertas de direitos. Taradas de tanto amor, independentes de tantos padrões, mais machos que muito homem e mulheres com pau pra toda obra.

Menos flores e mais respeito.

Acadêmicos do Xô Vira-Lata!

Almocei mais cedo, arrumei algumas coisas dentro da mochila, como algumas latinhas de cerveja, um óculos de sol e um elastiquinho pro cabelo e me troquei, pois sabia que o bloco devia sair às 16h da esquina da Rua Augusta com a Paranaguá, praticamente um quarteirão de casa. Os amigos decidiram ficar pelos blocos da Vila Madalena, mas eu decidi que ficaria aqui, pelo bairro que me acolheu desde que cheguei à selva de pedras. Como de costume, iria pra mais uma diversão sozinha.

Sabe aqueles dias em que você acorda e só quer ser feliz? E feliz leia-se ficar na rua, tomar uma dúzia de cervejas, ver mais gente na rua também e rir com os seus amigos. Sabe? A sensação é que todos que ali estavam procuravam a mesma simples coisa. O saldo do banco está no vermelho, a casa está precisando de uma faxina, meu carro quebrou, minha carreira estagnou, o relacionamento não vai muito bem. Mas e daí? Hoje eu vou atrás do bloco.

E é isso que interessa no carnaval afinal. Ou você queria estar, nesse momento, discutindo a tensão de uma possível terceira guerra mundial a se iniciar na Ucrânia? Ok, ok, nada funciona em nosso país antes do carnaval nem nossas vidas são tão belas como dos ucranianos. Eu já conheço esse discurso, tudo bem? Mas isso é problema da festa ou da nossa centenária vagabundagem? Sugiro que todos que são contra abram mão do vossos feriados prolongados e de vossas viagens a Fernando de Noronha como forma de repudio a esse absurdo que é essa festa mundana! Senta ali um minutinho, amigo, já falo com você.

O carnaval é nosso! É das riquezas mais humanas e naturais que temos no mundo e que, convenhamos, todos invejam. É o despir-se, figura e literalmente, de qualquer gravata maldita e só sorrir na rua. É suar, é rebolar, é abraçar, é fazer amor, é ouvir música alta, é jogar espuma no amigo, é se apaixonar pelo estranho, é o colorido. Sem espaços para complexos de corpo ou culturas… Nem de vira-latas.

Os mal humorados que me perdoem, mas eu amo o carnaval. Amo-o com as marchinhas, com os sambas-enredos, com o sambinha do Chico, com o axé, com o Lepo Lepo e o Beijinho no Ombro. Amo com os rebolados, com as crianças fantasiadas, com carros alegóricos, com os carros de som alto, os abadás e com os bêbados. Sem pulseirinha VIP, sem camarote ou filtro por renda. Com a nossa tristeza transbordada em alegria. “Deixei a dor em casa me esperando e brinquei e gritei e fui vestido de rei”…

O bloco foi sair só às 17h e nisso eu já havia esvaziado todas as minhas latinhas e subido e descido o quarteirão várias vezes. Sozinha, reparei que as senhorinhas moradoras do bairro estavam paradas na calçada, sorridentes. Que havia mais casais gays do que de costume na região e que as garotas de programa que vejo todos os dias por ali estavam entre amigas, com roupas comuns. Os travestis estavam tão bem montados como um destaque da avenida do Rio de Janeiro. Que as famílias que não puderam viajar fizeram do bloco a diversão. Que os moradores perdidos no mundo como eu se entendiam no balancinho do ombro e que os moradores de rua mexiam com todo mundo. A gente só queria sorrir feliz.

Foto 1 de Priscila Morales: http://www.flickr.com/photos/pgmorales/

Por minha conta

Eu estudo jornalismo, trabalho com comunicação corporativa, falo pelos cotovelos, já fiz teatro, dança, amo música, sou viciada em internet e redes sociais, e concluo que, sim! Eu vivo mesmo a comunicação! E nunca tinha tido a fucking vergonha na cara de abrir um blog. “Meu, enquanto vocês ficam escrevendo em blogs, eu prefiro ficar bebendo cerveja no bar”, eu pensava. Pois é, ainda prefiro. Mas com novos centímetros em minha cintura, me convenci de que algumas cervejas a menos e alguma verborragia a mais não seria de todo mal.

De qualquer forma, eu posso sair do bar, mas o bar way of life não sai de mim. Foi assim que resolvi unir tudo e criar esse espaço. Os papos em mesas de bares são sempre tão melhores e sinceros e as resenhas são mais criativas e descomprometidas, que sempre que esses momentos acontecem a gente acha que devia dedicar uma tese ao assunto. E não dedica. E ainda que os nervos se exaltem quando entramos enfim nos polêmicos debates sobre futebol ou política, o garçom chega com o petisco e o balde de mais três geladas e… Do que falávamos mesmo? Ah sim, da nova música do Paul McCartney…

A verdade é que raros ambientes são tão bons para divagar e filosofar sobre o que quiser como o ambiente de um bar. Então, meu amigo, senta aí, pegue um copo e me diz: sobre o que falaremos hoje?