Viver e ser a Copa – última parte: 12 lições que aprendi no mundial

Ok, eu sei, está na hora de desapegar. Eu vou conseguir, uma hora eu esqueço a Copa e volto à rotina. Mas enquanto isso não acontece, eu me lembro não só da festa toda mas de tudo que aprendi com ela. E não foi pouco. Eu tive experiências de trabalho, de curtição, de esporte e estou 100% certa de que elas me engrandeceram.

Antes de contar aqui as lições que vou levar comigo, respondo aos tantos comentários que ouvi e aos julgamentos que recebi desde quando me inscrevi no processo seletivo de voluntária: Eu cresci muito como ser humano, como profissional e como brasileira, coisas que dinheiro não costuma pagar realmente. Se isso é ser idiota, otária e inocente, como muitos disseram; prazer! Eu sou idiota, otária e inocente. Desejo que vocês sejam muito mais idiotas, otários e inocentes na vida pra poder receber tanta oportunidade de aprendizado gratuita assim. Desejo a todos nós.

Além disso, não me venham com xurumelas de “ah, mas trabalho voluntário em hospital, creche e comunidade carente ninguém faz, né?”. Fazemos, amigos. Eu faço. Fica aqui o convite para tomar uma cerveja e ouvir todas as minhas histórias de trabalho voluntário que já fiz quando estava no colégio, com o Corinthians e que faço até hoje na GE, onde trabalho. A Copa foi só mais um dessa deliciosa coleção de trabalhar sem ganhar com aquilo que gostamos e acreditamos. Obrigada.

Passado o desabafo, vamos às lições:

1 – Como profissional, eu aprendi o que eu achava que sabia: organizar um evento. A organização da Copa do Mundo passa muito longe de qualquer ideia que tenhamos sobre isso. Cada detalhe, cada procedimento, cada minuto contado para a rotina acontecer, cada saída para um problema. Não foi 100%, claro que não, mas sem dúvida foi um planejamento absurdo que eu jamais imaginei e vou levar pro meu currículo como exemplo e experiência. E só tive acesso ao que cabia na minha função de voluntária. Mal consigo imaginar planejar o evento todo…

2 – Como pessoa, eu aprendi sobre pessoas. Foram tantas nações e culturas misturadas que eu aprendi uma palavrinha aqui, outro costume ali, e exercitei o meu respeito ao máximo que podia. No final das contas eu aprendi mesmo que somos todos iguais, sorridentes e alegres pelo mundo todo e que é a pressão da vida que nos muda, é uma filosofia que nos impõe algo, um coletivo que repassa alguma coisa. Quando estamos diante só de algo que nos deixa feliz, no caso a festa do futebol, somos todos iguais e de bom coração receptivos a tantos outros.

3 – Como apaixonada por esporte, aprendi que ele é uma ferramenta. Complementa o item acima. O esporte é sim um caminho de transformação na sociedade. Ele educa, ele integra, ele gera renda, ele nos deixa saudável, ele rompe barreiras, ele socializa, numa simples troca de figurinha, num abraço de gol. Talvez eu tenha visto isso melhor por estar lá perto, mas sei que vamos todos ver ainda mais com a chegada das Olimpíadas e, principalmente, das paraolimpíadas, que também acontecerão aqui no Rio de Janeiro. Ele toca diversas esferas das pessoas, desde seu lado social e solidário até seu lado competitivo e de liderança. Ele ignora classes e cores e mistura tudo numa linda festa, como a Fan Fest mostrou diariamente pra mim. Ele cria metáforas da vida pra ensinar crianças a crescer na vida. Precisamos saber usá-lo.

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4 – Aprendi mais sobre questões de mobilidade. E não estou falando da mobilidade em São Paulo, mas da mobilidade de nosso corpo. Enquanto estávamos nos estádios nos preocupando com qualquer pessoa que precisasse de um acesso facilitado – fosse ela uma grávida, um idoso, um deficiente físico ou uma pessoa que se fraturou recentemente – as pessoas estavam repassando imagens de supostos deficientes “curados” nos assentos exclusivos.

5 – Exercitei muito meu autocontrole. Não foi fácil saber lidar com bêbados descontrolados, com pessoas mal educadas, exaltadas, com desrespeito com filas preferenciais, com zueiras além do limite, com provocações de torcedores. A orientação que recebi é que eu lidasse com tudo isso com o sorriso no rosto e um rápido raciocínio na tomada de ação. Árdua tarefa que deu certo.

6 –Balanceei coisas do nosso país. Foi muito chocante ver tão de perto como nosso país é tão amado e valorizado enquanto nós mesmos não o amamos como poderíamos. E isso não significa cegar para os problemas, mas saber ponderar onde temos mesmo vitórias e onde temos tantos defeitos e fazer com que o orgulho nos movesse a querer sempre mudanças. Bastava minutos de conversas com gringos para entendermos tudo isso. O olhar de fora me abria os olhos.

7 – Desenvolvi meu trabalho em grupo. Entre os voluntários havia mulheres, homens, adolescentes, senhores, gringos, deficientes de fala ou físicos e a cada jogo a minha equipe mudava. Eu tinha algumas horas antes do jogo para me entender com eles e fazer tudo acontecer. E tudo acontecia.

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8 – Eu descobri que eu aguento beber muito e ficar muito tempo sem dormir e muito tempo em pé. Descobri que meu cérebro trava na hora de trocar o espanhol pro inglês e voltar pro português e descobri que sei sambar melhor que muita gente no mundo. Descobri que tenho uma energia que não sei de onde saiu, rss.

9 – Eu entendi que a gente pode. A Copa foi das melhores da história mesmo com o tanto do “jeitinho brasileiro” praticado. Obras deixadas para última hora, projetos inacabados ou até menos nem começados, promessas, o tal do legado. Imagina se tivéssemos colocado mesmo a mão na massa? É a prova de que podemos. Se para o país todo isso não acontece, eu, pelo menos, farei isso pra mim e pro meu círculo. Dá pra fazer o melhor.

10 – Eu descobri que não quero mais a solidão que as grandes capitais nos dão. O período da Copa foi lindo de se viver porque estávamos sempre sedentos por fazer amizades, por falar com turistas, estávamos curiosos pelo desconhecido, queríamos interagir. Por que não ser assim diariamente? Às vezes, essa desconfiança que carregamos todos os dias, o mau humor, o lado antissocial e a pressa pesam mais que 12 horas de trabalho. Quero aprender a ponderar isso daqui para frente.

11 – Me questionei sobre o futebol que é feito no Brasil. Em todos os seus aspectos, dentro e fora do campo. Me perguntei porque fora da Copa temos sempre tantos problemas com agressões e segurança, com PMs violentas, com brigas inexplicáveis. Me perguntei porque os estádios não podem estar sempre cheios e festivos como estiveram na Copa. Tentei entender porque ainda temos um futebol tão amador, no âmbito trabalhista mesmo, sobre a forma como dirigentes, jogadores e clubes ainda trabalham. Não achei resposta pra maioria das perguntas, mas sem dúvida estou revendo e repensando diversos conceitos que sempre achei corretos.

12 – Eu senti, talvez como nunca tenha sentido antes, o poder da palavra “obrigado”. Ouvi tantas vezes isso de pessoas que ajudei que meu objetivo no dia passou a ser isso. Dar boas-vindas e ouvir um “obrigado”, ensinar o portão certo e ouvir um “obrigado”, ajudar a carregar a pipoca até o lugar marcado e ouvir um “obrigado”, correr pra procurar a resposta de alguma informação que eu não sabia, bater uma foto, traduzir uma palavra, pedir um táxi. Eu ouvi “obrigados” até de gente que eu nem ajudei. Foi forte, muito forte.

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Se eu mesma pudesse voltar no tempo, o que eu mudaria seria isso: eu é que digo obrigada! Eu lembro de cada rosto que eu ajudei e esses alguns segundos de interação me tocaram de alguma forma que, aos poucos, eu vou descobrindo. Lá no meu primeiro texto eu disse que a Copa havia me mudado e eu espero que tenha conseguido contar um pouco do porquê pra vocês. Sinto um orgulho imenso de ter sido voluntária! Bato no peito! Ou vocês conseguem me dizer que valores eu cobraria por todos esses itens acima? Impagáveis. São 12 lições que, com certeza, em mais algumas horas que eu digitasse se tornariam 24, 36… Incontáveis lições pessoais.

Acabou. Mas ela vai ficar aqui comigo. Obrigada, Copa do Mundo!

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Viver e ser a Copa – parte III: Uma brasileira longe do Brasil

Por Paula Pezutto

Desde quando decidi viver essa nova experiência na Austrália sabia que uma das épocas que mais sentiria falta de estar no Brasil seria na Copa do Mundo. Cheguei a repensar, afinal é a minha paixão pelo futebol. São Copas acompanhadas fielmente desde 1990 na Itália, – a primeira da qual tenho recordações – depois desejei muito estar em algum estádio lá nos EUA (quem não se lembra de onde estava quando aconteceu aquele chute pra fora no pênalti do Baggio? No meu caso, férias na praia, com comemoração na avenida com meu primo), depois inconformada com o vice da França em 1998, em 2002 acordando de madrugada em todos os jogos na Coréia/Japão e enfim até chegarmos ao Penta e às eliminações de 2006 e 2010. E logo agora quando o MAIOR EVENTO da bola aconteceria no meu País, logo no “País do Futebol”, eu não estaria para acompanhar de pertinho e fazer parte de todo esse clima que amo fazer parte.

Mas enfim, a decisão estava tomada! E como dizem, cada escolha uma renúncia e essa foi uma delas que tive que encarar aqui do outro lado do mundo. Mas com isso eu também tinha a chance de conhecer um outro tipo de torcedor. Na verdade, no caso de Perth, muitos outros tipos de torcedores.

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O Australiano não tem muita paixão pelo nosso futebol, seu negócio mesmo é o Football, um jogo com a mistura de futebol americano e rugby, que ainda estou tentando entender. Mas uma admiração existe, independente do estilo e dessa vez a sua seleção também estaria lá no Brasil para disputar a Copa do Mundo. Por isso, em muitos lugares que fui e pessoas que eu conhecia, o assunto era o mesmo quando eu dava a minha resposta ao “Where are you from?” Muitos não se conformavam comigo, o que eu estava fazendo aqui? A Copa do Mundo no meu País e eu aqui.

Foi engraçado em uma noite que um australiano me parou na rua para perguntar uma informação – claro, com minha aparência de australiana, ele realmente achou que eu saberia ajudá-lo. Ao notar meu “accent” brazuca sua próxima pergunta foi: “É claro que você vai voltar para o Brasil para assistir a Copa né?”. E ao ouvir minha resposta negativa, me mandou logo na cara: “ARE YOU CRAZY?”. Sim, era o que a maioria dos gringos me falavam ao tocar nesse assunto: que eu estava louca. Muitas histórias… Um ‘aussie’ que estava empolgadíssimo para conhecer o Rio de Janeiro e Salvador discutiu comigo quando sugeri que fosse a São Paulo também. O professor que por onde me via, falava sobre a Copa e queria saber da minha expectativa. O mais bacana de tudo isso, foi ver como em Perth convivemos com muito mais estrangeiros do que com os próprios australianos. Pude também conhecer um pouco da reação dos diversos torcedores do mundo.

Conheci o Belga que não cansava de me dizer que sua seleção não iria pra frente, mas me fez questão de mostrar seu grande astro, contar informações de onde jogava e o que falavam dele. Os coreanos que se surpreenderam com o primeiro empate do seu time e me repetiam a todo momento: “It´s a miracle!”. Os árabes que até camisa para o Brasil fizeram! O suiço que por ter também descendência sul americana escolheu torcer para o Uruguai – inclusive, acompanhei sua decepção ao serem eliminados pela Colômbia.

Por sinal, foi o jogo que mais me surpreendeu. Junto do Brasil, a torcida colombiana foi a mais apaixonada durante a Copa. Uma amiga me contou tudo no seu primeiro jogo. Com a ausência de Falcão Garcia, que estava lesionado e não jogaria o Mundial, fui orientada a ficar de olho em James Rodriguez. Segundo ela, “seu namorado”. E ela estava mais do que certa! O menino realmente arrebentou!

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Acordei em cada madrugada que pude, mesmo com o inverno chegando nos 3° C. Contei os minutos para ver a abertura e a estreia da nossa seleção, em um churrasco nos reunimos para tentar estar mais próximo do Brasil, Também assisti o confronto com uma minoria mexicana, já contra o Chile, me irritei com a quantidade de gringos torcendo contra o Brasil. Torci muito nos jogos dos Socceroos, como é conhecida a seleção australiana, e fiquei feliz em ver sua boa participação, contando com um dos gols mais bonitos da competição. E vibrei com as atuações da Colômbia, mais uma vez, os que mais me surpreenderam.

Infelizmente fui obrigada a engolir as gracinhas de um chefe alemão depois da decepcionante eliminação por 7×1. No dia seguinte, ainda de cabeça cheia, ganhamos 7Up e chocolate alemão. Faz parte! É o futebol! Hoje, sem dúvida, ele está muito mais feliz com seu time campeão e eu, mais uma vez acordada na madrugada, compartilho um pouquinho com ele, afinal, seria um castigo ver nosso maior rival, a Argentina, levar a Taça na nossa casa. No Brasil não!

E assim foi… Daqui, recebi fotos dos amigos no Brasil que se revezam entre Vila Madalena, estádios pelo Brasil (do CORINTHIANS, inclusive), reuniões com os amigos e com a Família. Foram com certeza, dias de grande saudade, com aquela vontade de estar lá pertinho e pra ver o inesquecível. Marcante! Foi a Copa do meu País, vivenciada do outro lado do mundo! E eu poderei dizer, daqui foi LINDO DE VER!

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Viver e ser a Copa – parte II: Com os gringos pelas ruas

Quando a paixão é grande, ela transborda. E foi o que aconteceu na Copa. Além de toda a linda festa dentro dos estádios, que contei a minha experiência aqui, a energia tomou as ruas. E eu curti isso intensamente também. Nos estádios vivi a organização do torneio, a beleza do futebol jogado, o deslumbre das arquibancadas lotadas em uma festa inesquecível. Nas ruas, eu vivi as histórias malucas, o clima da socialização com gente de todos os lugares. Isso eu também preciso contar, pra jamais esquecer.

A Fan Fest foi, sem dúvidas, palco pra toda essa integração. Não só pra mim, é o que ouvi de todo mundo que lá frequentou. Para os chatos de plantão que acharam que “teriam uma faca no baço” ao se unir ao desconhecido no coração do centro de São Paulo, só lamento. Perderam o que tinha de mais rico na Copa. O mesmo aconteceu pela Avenida Paulista e pela Vila Madalena. Até mesmo nos shoppings, por que não? Conheci um casal costarriquenho trocando figurinhas no chão do Shopping Eldorado.

Foram nesses lugares que eu fiz amigos do mundo todo. Cheguei a passar quase 10 horas em pé, na Fan Fest, mudando de torcida a cada jogo que começava. Eu não vou esquecer do primeiro dia de rua, um dia antes da abertura, no boteco na frente do MASP, onde croatas, chilenos, mexicanos, holandeses, brasileiros, americanos, australianos e colombianos (certamente esqueci alguma nacionalidade) se provocavam e cantavam, um por vez, suas músicas. Fechamos a calçada.

Na Vila Madalena eu assisti EUA x Gana e me apaixonei pelos americanos. Eu jamais esperava vê-los tão enlouquecidos por um esporte que não pertence ao seu país e comemorar gol como nós. Foi lá que conversei mais tempo com o primeiro gringo, que estava em São Paulo sem nenhum ingresso para jogos, mas veio mesmo assim, para curtir o clima daqui. Foi com ele que dei risada quando me contou que foi visitar “plantações de caipirinhas” e que, com muito custo, descobri que, na verdade, se tratavam de plantações de cana. Foi dele que ouvi que, perto do que ele vive em Chicago, o metrô daqui é “fantast-fucking-amazing”, assim, tudo junto numa palavra que não existe, pra intensificar bem o que ele queria dizer. Ele estava completamente apaixonado.

Num bar da Augusta, parei para ver Chile x Austrália, aparentemente um jogo tranquilo. Mas bastou o bar encher de colombianos, torcendo, como nós, para qualquer país sul-americano, para aquilo virar uma festa de “Chi chi chi, Le le le!”. O mundo se sentiu tão em casa por aqui que um senhor, alemão, resolveu interagir, sem nenhuma daquela frieza que tanto dizem deles. Cinco minutos bastaram para descobrirmos que estávamos diante de um ex-jogador profissional da Bundesliga, que já tem planos e negócios bem encaminhados para vir morar no Brasil.

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O ex-jogador profissional Karl-Heinz Granitza

Também na Vila Madalena, passei o sufoco de achar um bar para assistir Brasil x México. Preços absurdos, ruas intransitáveis, mas que valeram à pena. Apesar do estresse de se assistir a um jogo em bar, com centenas de cornetas em volta, era aquele clima que eu queria sentir e que meu sofá não me daria.

Mais um jogo dos EUA ia acontecer e depois de terem me conquistado, não podia não assistir à partida ao lado deles. A Fan Fest para Portugal x EUA estava tomada… De americanos! Entre as musiquinhas da Copa que mais grudaram na minha cabeça, está “I believe that we will win”. Num estilo a la torcida organizada, eles cantavam juntos, passavam bandeirões e se emocionavam muito. Como esquecer a cena de uma americana tentando aprender a sambar, quando, na verdade, parecia mais uma minhoca? Sem contar, claro, que entraram para a lista de torcedores mais bonitos dessa Copa.

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Como todo mundo já comentou, essa Copa foi mesmo dos latinos. Ok, nenhum deles levou o título, mas ganharam, de longe, como povo mais carismático e festeiro. A fase de mata-mata começou e foi de partir o coração assistir Holanda x México ao lado dos mexicanos na Fan Fest. Guerreiros, torceram muito e tiveram a torcida de quase 100% do público que ali estavam. A coisa ficou ainda mais emocionante ao assistir à disputa de pênaltis da Costa Rica com a Grécia. O Anhangabaú vibrou com a classificação dos costarriquenhos como se fosse a nossa vitória.

Nessa altura do campeonato, a cidade começava a se encher de argentinos, já que seria em São Paulo o próximo jogo deles pelas oitavas-de-final. “América Latina, menos Argentina!” era o que os latinos se uniam para cantar. Uma brincadeira deliciosa de se viver, enquanto eles respondiam com suas pegajosas músicas. Foi nesse dia que conheci três argentinos “buena onda” que não dei muita atenção, mas que virariam grandes amigos pelos próximos dias. Era assim o tempo todo, conversávamos com gringos, dávamos risada, nos provocávamos, trocávamos telefone e saíamos andando. Não havia motivos para não ser simpáticos quando eles queriam tanto interagir e tinham estampado nas testas a felicidade por estar na Copa do Mundo. Mas havia tanta gente pra papear e conhecer que não se passava mais de 10 minutos com cada amigo novo.

Até com japoneses, e toda a dificuldade da língua, eu interagi. É simplesmente gratificante poder ajuda-los ao ver que tinham um guia turístico de São Paulo todo em letrinhas indecifráveis, mas ainda assim não sabiam como chegar na Vila Madalena porque não conseguiam pronunciar a palavra “Aspicuelta” para o táxi. Dei a direção ao motorista, expliquei, em inglês, a eles quanto tempo daria até lá para que o taxista não os enganasse e foram. Sei lá se chegaram. Espero que sim.

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Com quase 65 mil pessoas na Arena Corinthians e perto de 20 mil pessoas na Fan Fest, encontrei os tais três argentinos novamente e rimos juntos de tamanha coincidência. A gente precisava tomar uma cerveja juntos então, não poderíamos deixar passar esses encontros. Foi com eles que, por 4 ou 5 dias, perambulei pela cidade, de dia e de madrugada a pé, bebi Fernet com Coca-Cola num quarto de hotel no coração da República, improvisado numa garrafa cortada com um cabo de escova de dente para misturar, fizemos pizzada em minha casa, viramos a madrugada na Vila Madalena, na Augusta, em pubs. Tiramos o sarro da cara um do outro, ajudei-os a tentar xavecar mulheres, passamos telefone de chefes com nomes errados para desconhecidos, ensinei a dançar o Lepo-lepo, prometemos ir à Rússia juntos. Em menos de uma semana, pude ouvir dessas pessoas praticamente desconhecidas que eu era “buena onda” e que pessoas do bem atraem outras pessoas do bem. Que eles não tinham dúvidas de que eu seria uma pessoa muito feliz na minha vida.

Foi muito difícil dizer tchau para pessoas tão queridas, mas sei que fizemos ali uma amizade que ficou. Fomos irmãos por dias, porque iríamos nos desfazer disso? Dia após dia, ainda nos provocamos por whastapp e fazemos planos de eu ir à Buenos Aires ou eles à São Paulo e fazermos bagunça por aí. “Buena Onda” foi eleita, por mim, a expressão da minha Copa.

Eles foram e então chegaram outros. Quando a Copa se caminhava para o fim e o Brasil já havia sido eliminado, encontrei canadenses e indianos. Mas peraí, o que eles estavam fazendo aqui se nem suas seleções jogaram? Pois é, amigos, pois é. Vieram para curtir o evento mais amado e esperado do mundo e visitar o país que sempre quiseram conhecer. A minha saga de aventuras continuou, de bar em bar, em samba, em balada, apresentando a caipirinha, a cachaça, a polenta frita. Foi com eles que sentei pra conversar só sobre o que eles viram de curioso e diferente por aqui, que pra nós é mais que corriqueiro. Foi deles que ouvi as coisas boas que o nosso país tem e nem damos o devido valor. Foi com eles que encontrei dois rapazes do Qatar perguntando para mim por onde eles podiam encontrar drogas. Foi com eles que encontrei japoneses ainda em São Paulo apenas para curtir o resto da Copa. Mais uma despedida difícil cheio de “obrigado por ter feito tudo o que fez pela gente. Mantenha contato, nós voltaremos um dia e te esperamos em nosso país. Vocês, brasileiros, são incríveis.”

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A Copa acabou ontem e eu já estou toda saudosa de ter vivido tudo isso. Desde ontem à noite, meu whatsapp está pulando de mensagens de “foi tudo lindo, obrigado, chegamos bem em nossas cidades” em espanhol, em inglês, em portunhol. Mas tem também as mensagens de “ estou de volta à São Paulo para meu último dia antes de embarcar, vamos tomar uma cerveja?”. É certo que ainda não acabou.

Na parte I, falei um pouco dos fatores que mudaram a minha vida ao trabalhar como voluntária no estádio. Nessa parte II, falo dos outros fatores que me mudaram ao viver o que tinha de melhor pelas ruas da Copa. Mais uma vez, quebrei barreiras. Do idioma, da cultura, da filosofia. Vi como existem pessoas boas nesse mundão todo a fora e decidi que é isso que quero perto de mim. Foi como um soco no estômago sentir que há muita energia ruim que podemos e devemos eliminar e tentar, ao máximo, manter perto de nós apenas as boas, as pessoas que emanam as coisas positivas. Vi como temos um povo desunido e desiludido, que precisa abrir mais os olhos para enxergar o que temos de melhor e amar mais nosso país. E que temos força pra ser mais, mas nem em nós mesmos acreditamos. O brasileiro é o melhor e o pior do Brasil e talvez o que menos ame seu próprio local dentre todas as nações. Eles nos amam e nós não.

Vi, mais uma vez, que paixões, como a do futebol, deixam as pessoas abertas, nuas, sem máscaras e dispostas para a vida e que é assim que deveríamos ser em tempo integral. Em que outra situação eu faria amigos que se tornariam irmãos, que confiariam em mim como confiei neles, porque tínhamos ali apenas a vontade de curtir e interagir com pessoas de gostos em comum? Não havia nenhum outro interesse na frente. Chega de teatros, de por o profissional à frente do pessoal, de sempre tentar se dar bem em algo, de viver pro sucesso, pro dinheiro e pra fama, de sempre ter uma intenção em tudo, quando o melhor da vida está nas pessoas e em estar rodeada delas pura e simplesmente. Está em conhecer o mundo, em trocar experiências e aprendizados, em jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Casa, escritório, faculdade, academia, casa, escritório… Sério mesmo que é assim que queremos viver quando há um mundo de sorrisos e abraços por aí? Que a Copa tenha mostrado isso a muitos brasileiros assim como mostrou a mim. E que a gente coloque as asas de fora mesmo. Porque eu decidi que quero voar.

Viver e ser a Copa – parte I: Os meus 6 jogos no estádio

Explicar o inexplicável. Não, eu não estou falando da vergonhosa derrota por 7×1 da nossa seleção brasileira para a Alemanha. Ainda que isso também seja inexplicável, tenho preferido ficar relembrando e recontando apenas as incríveis experiências que tive nesses meus últimos 30 dias. Elas também foram inexplicáveis. E inesquecíveis. Podem me achar dramática ou exagerada, mas mudaram a minha vida.

Quero contar um pouco disso, tanto para poder compartilhar com quem tiver curiosidade em saber como foi quanto para não correr o risco de deixar o tempo embaralhar as lembranças no meio de tanta coisa inútil no meu cérebro. Portanto, já aviso: o texto será longo, como a maioria dos textos desse blog de boteco.

Por onde começar? Eu já contei um pouco como foram as minhas experiências de voluntária. Falei dos preparativos para a Copa aqui e da visão que tive da organização no dia da abertura em Itaquera aqui. Vou falar, então, menos do evento e mais das pessoas. Porque foram elas que fizeram essa Copa ser tão maravilhosa.

Desde o dia 7 de junho que estou conhecendo pessoas. Aos montes. Dezenas por dia. No dia 7 tive os primeiros contatos com os voluntários com os quais eu trabalharia junto e com o time de funcionários do COL que iriam nos coordenar pelos próximos dias. Todos brasileiros apaixonados de alguma forma pela Copa do Mundo, fosse pelo futebol, fosse pelo turismo, fosse por eventos, fosse pelo Brasil. Quando recebi meu uniforme e minha credencial caiu a ficha de que eu estaria no momento em que mais esperei a vida toda e em que o mundo inteiro olharia pra gente. Desde então, não dormi… E foi sem dormir que passei os próximos dias perambulando pela cidade, sozinha ou com amigos.

Na primeira fase da Copa, trabalhei em quatro jogos: Brasil x Croácia, Uruguai x Inglaterra, Holanda x Chile e Bélgica x Coreia do Sul. Os croatas chegaram fazendo a festa e sendo uma das torcidas mais animadas e criativas do início do torneio. A camisa xadrez estava em todos os lugares e mesmo sem entender uma palavra do que cantavam, era impossível não sorrir quando entoavam suas músicas pelo estádio e pelas ruas. Achei curioso que, dentre todas as torcidas que recebi, eles eram muito mais velhos, muitos grupos de senhores que provavelmente curtem o futebol há anos.

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Uruguai x Inglaterra

Os uruguaios foram sensacionais, me ganharam nos primeiros contatos. Uma alegria em estar aqui e um espírito aventureiro e maloqueiro que os sul-americanos trouxeram pra essa Copa. Estiveram também no meu top10 de nacionalidades com mais homens bonitos. Vê-los comemorar o gol do desempate conta a Inglaterra foi inesquecível, torci muito por eles. Os ingleses, muito diferentes, faziam bem menos bagunça e estavam em menor quantidade. Mas foram criativos nas fantasias e nos apetrechos para torcer. Uma minoria mais louca, visivelmente torcedores mais fanáticos que seguem os clubes nos campeonatos de lá, chegavam com bandeirões, em grupo, bebendo muito, corpos pintados sem nenhum frio quando se fazia quase 10° em Itaquera.

Holanda x Chile

Algo muito parecido aconteceu com os chilenos e holandeses. De um lado, uma torcida alegre, festeira, que grita, dança, canta, sorri, que coloca toda a emoção pra fora. Do outro, mais tímidos, mas que usam a criatividade para mostrar o orgulho por torcer pelo país. Chilenos me deram muitos presentes e definitivamente invadiram a cidade de São Paulo, há quem tenha ficado até de saco cheio do “Chi-chi-chi Le-le-le”. Eu adorei! Já os holandeses, os quais acredito não existir algum com menos de 1,80 de altura, conseguiram ficar vermelhos com o sol do inverno paulista. Mas sorriram muito e adoravam ver que também queríamos fazer festa com eles. Da primeira fase, foi o jogo em que mais fiz bagunça, com um megafone, num cadeirão na rua, mexendo com quem quer que passasse por mim. Tem como não se orgulhar de dar boas-vindas a eles na Copa do meu país, no estádio do meu time e vê-los abrir um sorriso imenso e responder gritando “graciaaaaas” ou “thank yoooou”? Espero que eles não se esqueçam de mim como eu não me esqueço de tantos deles.


Bélgica x Coreia do Sul

O jogo entre belgas e sul-coreanos foi um tanto quanto curioso, eu não sabia o que esperar das duas torcidas. O que descobri foi que os belgas também são lindos e muito altos. Como torcedores, seguiram os protocolos do que eu já tinha visto de europeus, criativos em roupas, fantasias, cores, bandeiras. A coreia do Sul foi toda simpática, ainda que de alguns fosse mais difícil tirar um sorriso e outros fossem menos flexíveis com algumas proibições de estádio. Mas estiveram o tempo todo em pé, cantando, batendo palmas e balançando bandeirinhas. Ainda que não tenha sido o jogo mais empolgante de torcidas, ele foi o que fez eu ver o poder do futebol pelo mundo quando caiu minha ficha que estava no meio de pessoas vindas de tão longe do mundo e com culturas e histórias tão diferentes. Tudo pelo futebol. Foi nessa partida que ouvi o maior número de “obrigados” de maneira gratuita. Sem nem mesmo ter falado com eles, muitos torcedores passavam por mim e agradeciam. Acho que viam em mim uma maneira de dizer a todo o evento um “obrigado por essa incrível experiência”.

Assim acabou a fase de grupos e nesse intervalo entre um jogo e outro, vivi a rua, a Fan Fest, a Vila Madalena e as muitas loucuras que conto um pouco aqui na parte II (em breve). Dividi apenas para que a leitura fique mais fácil e menos eterna.

Oitavas-de-final: Argentina x Suíça

Então vieram as oitavas-de-final e, com as classificações dos grupos, descobri que eu trabalharia no jogo entre Argentina e Suíça. Óbvio que fiquei ansiosa. Quem não queria ver um jogo dos hermanos? Eu não queria vê-los se dando bem nessa Copa, mas queria ter a experiência de conhecer a torcida deles e de ver Messi jogar. A rivalidade entre nós no futebol é, pra mim, imensa, queria sentir isso ao vivo. Mas eu sempre adorei o povo que sempre me recebeu tão bem em seu país. Seria uma festa e tanto!

E foi! A esmagadora maioria que chegava ao jogo era argentina. Eles uniram um pouco do que vi em torcidas sul-americanas e europeias (e nessa parte eles ficariam felizes de ler isso, já que acham que são os europeus da América Latina, rss). Bagunçam como nós, cantam, pulam, gritam, mas são geniais em fantasias, cartazes, bandeiras e acessórios. Dentro do estádio, diferente do que muitos disseram, não foi um apoio incondicional durante 90 minutos não. Talvez porque os brasileiros presentes, que também eram muitos, se empenharam em responder aos cantos a todo momento e conseguiram superar o volume deles. A briga entre “Brasil, decime que se siente” e “1000 gols, 1000 gols” foi acirrada, sem contar as brigas de verdade, algumas poucas. Para não deixar os suíços de lado, eles também foram criativos, mesmo que em pouca quantidade. Nunca imaginei que fosse vê-los cantando “Suíça, Suíça, ai se eu te pego” e nem que eles teriam uma musiquinha que só canta “olê, olê, chocolate”. As duas nacionalidades, de parabéns também pela beleza de seus torcedores.

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Semifinal: Argentina x Holanda

E então, o último jogo na Arena Corinthians foi Argentina e Holanda. Além da expectativa por um jogo disputado dentro de campo, tive a tensão de como seria encontrá-los um dia após a nossa fatídica eliminação. Foi duríssimo vê-los chegar felizes e ter que tirar forças de onde eu não tinha. Confesso que esperava mais zueiras diretamente comigo, que fico muito à vista dos torcedores que chegam, mas na real não foram tantas. Um bom dia com gestos de mão fazendo o número sete ou alguma letra de música que eu nem sempre entendia tudo o que dizia foi o que rolou. Ainda que tenha sido doloroso, as brincadeiras eram feitas sem direcionar a nenhum voluntário ou nenhuma ofensa pessoal. Obrigada pela compreensão.

Doído mesmo foi vê-los saírem fazendo uma festa do estádio. Meu desejo não era vê-los chorar, mas sim poder entrar no meio da roda e pular junto, cantar qualquer coisa junto por também estar feliz. Mas naquele dia não dava pra tirar felicidade de onde não tinha. Fiz meu trabalho, sorrindo sempre e também foi sensacional, mas vou lembrar sempre que poderia ter sido diferente. Os holandeses, dessa vez, eram uma quantidade menor do que estiveram presentes no jogo contra o Chile e foram ainda mais discretos. Primeiro porque os argentinos foram tão exaltados que era difícil que holandeses ganhassem espaço, depois porque na saída, os laranjas não estavam muito felizes.

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Enfim, celebrei o último dia na festa para os voluntários, lá mesmo, nos bastidores da Arena. Com um trabalho imensamente reconhecido pelos coordenadores, pelo COL e pela FIFA. Como voluntária, não há o que reclamar. São N fatores que me levam a dizer que a Copa mudou a minha vida. Nessa parte I, o que posso dizer é que engrandeci ainda mais a minha paixão pelo voluntariado, seja ele social, ambiental, educativo ou apenas de entretenimento. É lindo fazer algo que você vê, ali, na sua frente, a importância da sua presença em forma de agradecimentos, sorrisos e risadas. Senti também o poder de integração que o esporte tem, entendi isso de maneira ainda mais forte do que eu já imaginava. Ele une pessoas, quebra barreiras de idiomas, culturas, filosofias. E mais do que isso, vi que paixões, como a do futebol, nos fazem tirar qualquer máscara. Vi ali as pessoas de verdade, sem nenhuma necessidade de ser um personagem, de passar alguma impressão certa ou errada ou de aparentar algum estereótipo imposto. Eram eles, nus e crus, numa curtição louca. E eu era eu, aberta a todos eles.

Dos meus jogos na Arena Corinthians, vou levar cada torcida, cada musiquinha que aprendi – e foram muitas – cada presente que ganhei dos turistas, cada xaveco ou pedido de casamento que recebi, cada cara lindo que vi e me apaixonei, cada foto, cada setor em que trabalhei, cada imagem do campo, de dia e iluminado de noite, cada grito de gol, cada jogador importante que vi, cada voluntário que me ajudou, cada pessoa ilustre que recebi, cada palavra gringa que aprendi, cada noite sem dormir de ansiedade, cada frio na barriga no caminho ao estádio. Quero lembrar de tudo, tudo mesmo, pra não deixar isso acabar em mim nunca mais.

Um balanço do primeiro dia na organização da Copa do Mundo

Agora que passou a minha euforia e explosão emocional de estar na abertura da Copa do Mundo – mentira, não passou, mas to me controlando – eu queria muito também escrever algo sobre o evento em si, um olhar mais crítico sobre acertos e erros que a organização, e nós voluntários também, tivemos nesse primeiro dia. O intuito desse balanço é mostrar que não há porque só reclamar ou só rasgar elogios.

Grandes vitórias

  1. O assunto mais questionável, o temido caos do trânsito e do transporte público, foi nota 10. O expresso da Copa e o metrô deram conta do recado, tudo muito bem sinalizado e sem panes. Como era de conhecimento geral que não chegariam carros ao local, não houve problemas com trânsito na região. Apesar de ter sido feriado, acredito que teremos esse mesmo fluxo tranquilo para os próximos jogos em São Paulo, mesmo em dia de semana.
  2. A entrada dos torcedores foi muito tranquila. Com os portões abertos com muita antecedência, não houve tumulto. As catracas, detectores de metais e raio-x funcionaram perfeitamente e havia muito espaço para que se acumulassem muitos torcedores sem gerar sufoco ou empurra-empurra.
  3. A mesma coisa para a área de circulação externa, com os stands dos patrocinadores. Muita música, muita luz, muitos voluntários e funcionários felizes e, dessa forma, muitos torcedores circulando com amigos, tirando fotos e fazendo festa.
  4. Considero a iluminação uma vitória. Ainda que tenham tido refletores que se desligaram por alguns minutos, não interferiram em nada, o restante da iluminação segurou a bronca. Dentro do estádio, é como se sentir num imenso telão de HD de tão bonito que fica iluminado. Fora, nas áreas de circulação, iluminação boa também. O telão funcionando deu um show à parte!
  5. Equipe da organização da Fifa sempre muito animada, sorridente e prestativa, mesmo com todo o cansaço e todos os eventuais problemas, que vou citar mais abaixo. Muita prioridade, preocupação e respeito com crianças, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e quem mais precisasse de ajuda.
  6. Não posso dizer sobre a questão dos protestos, pois não vi, mas sobre as barreiras em volta do estádio, as polícias, civis e militares, também fizeram um ótimo trabalho garantindo que o mínimo de pessoas mal intenciadas chegassem perto. Não ouvi relatos sobre tentativa de invasão, de cambistas na boca da entrada, brigas ou de outros problemas maiores.
  7. Ponto mais que importante: cerveja não faltou.
  8. Por fim, um dos pontos mais incríveis, na minha opinião, é ter Itaquera tão em evidência. E digo isso por ser uma região de periferia. Não faria sentido algum colocarmos a abertura da Copa num estádio rodeado por prédios modernos, grandes avenidas e casas seguras. Não é a nossa realidade e o mundo precisa ver isso. Ver para refletir, ver pra entender nossa capacidade de também ser grandioso, ver para entender que o Brasil é mais complexo e profundo que selvas e carnavais.
  9. Gringos. Eles são simplesmente demais e estão nitidamente felizes em estar aqui. Não é só por ver a Copa não, é por estar sim no Brasil. Eles adoram, estão empolgados com a oportunidade de beber muito, se divertir na rua, conhecer mulheres bonitas, viajar por todo o país com lugares tão bonitos. Alguns passam dos limites em todos os assuntos, mas em geral, eles são as pessoas mais simpáticas pelas ruas no momento.
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Estádio durante o jogo à noite

Grandes derrotas

  1. Na minha opinião, o ponto baixo e o mais relevante, pra mim, foi a alimentação. Antes mesmo de acabar o primeiro tempo já não havia comida no estádio, havia acabado tudo. Nem mesmo a pipoca ambulante das arquibancadas eram mais encontradas. Isso gerou muita insatisfação das pessoas – bem compreensível, ao meu ver – e nós, voluntários, tivemos que segurar uma baita bronca de pessoas exaltadas que não entendem que não tínhamos culpa disso. Faz parte.
  2. Educação, como sempre, é um ponto ruim por aqui. E isso envolve tudo, desde alguns famosos que davam xiliques quando eram reconhecidos, até brasileiros que xingavam os voluntários pela culpa de todos os erros do evento, até as vaias da Dilma. Levamos essas imagens para o mundo todo e não concordo com esse tipo de hostilidade com ninguém. Não passei nenhum tipo de agressão verbal ou tensão com estrangeiros. Passei várias com brasileiros.
  3. A segurança interna do estádio me desagradou. Os chamados Stewards, segurança privada do evento, deixou a desejar. Em vários pontos que deveriam estar, não estavam. Outros, visivelmente assistindo jogos e distraídos. Em horários mais agitados, como intervalos de jogos, era difícil encontrar algum perto das filas, já que pessoas estavam exaltadas com a falta de comida. Não bloquearam a entrada de latas nas arquibancadas, vi muitas pelo chão.
  4. Um pouco triste em ver os pontos inacabados do estádio. A arquibancada superior norte passou o evento todo com um enorme guindaste, ou um elevador, não sei bem, ao lado, uma imagem feia de se ver, como se a obra estivesse acontecendo enquanto todos estavam lá. Muitos pontos conseguíamos ver o fundo de escadas improvisadas e andaimes e algumas poças apareciam, sem nem mesmo chover.
  5. Nem tudo no mundo dos voluntários é mil maravilhas também. Alguns muito prestativos, outros já abusando da facilidade em ver o jogo e esquecer do público, nosso foco ali. No entanto, a esmagadora maioria daqueles com quem interagi trabalhou muito, muito mesmo!
  6. Outro ponto negativo que todo mundo já comentou, reforço aqui: A abertura. Fraca e curta. Com tantos carnavalescos do Rio e São Paulo, com incríveis festas de Parintins, vimos uma Belga fazer algo pouco empolgante. Quem esteve no estádio viu, mais da metade dos expectadores estavam, no momento do espetáculo, lá fora, bebendo com os amigos. Isso era mais divertido do que a apresentação.
  7. Outra percepção minha, e aqui ressalto: é apenas uma percepção, foi o excesso de ingressos concedidos por patrocinadores ou para convidados. Foi a maioria dos visitantes que atendi. Reforço: pode ser apenas uma percepção do local onde estive, mas me fez pensar um pouco sobre isso.
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Torcida croata costumava ser vaiada quando cantava mais alto

Nem lá, nem cá

  1. Algumas reclamações considero desnecessárias, mas também não considero vitórias. Ficou no 0x0, coisas esperadas em qualquer evento. Como as filas. Bebida, comida e banheiro tiveram filas enormes em momentos de pico, como antes do início do evento, intervalo entre abertura e jogo e intervalo do jogo. Esperado e comum em qualquer evento desse porte.
  2. Também vi jornais reclamando da falta de muitos voluntários e funcionários que falassem inglês. Também discordo. Não tínhamos mesmo uma equipe 100% “english speaker” mas também não vejo como um problema. A ver o que muitos corinthianos passaram no Japão, achando que o inglês salvaria. Turista se adapta, se vira, espera passar perrengue em país estrangeiro, faz parte do pacote. Quem sabia falar, se identificou para isso e ajudou como pode. Nada disso atrapalhou o fluxo.
  3. Vi também algumas reclamações da postura da torcida brasileira. Bem esperado, na minha opinião também. A torcida da seleção não é a torcida dos times brasileiros. De Copa do Mundo então, mais distante ainda dos campeonatos do Brasil. A festa é outra, é diferente. Ainda que não seja a minha forma mais favorita de se torcer, ainda que eu discorde, compreendo as diferenças.

Enfim, amigos. Se eu pensar mais um pouco, saem mais vários pontos a serem comentados. Se eu lembrar mais algo, comento e coloco aqui para a discussão. Fica o balanço, nem 100% negativo, nem 100% positivo. Aguardo as opiniões de vocês e que venham os próximos jogos!

E para organizar uma Copa?

Eu mal comecei o meu trabalho como voluntária na Copa do Mundo 2014 e já tenho muito o que contar. Como disse, vou, aos poucos, compartilhando minha experiência por aqui durante esses tantos dias. Já de início, queria falar sobre duas coisas que me chamaram a atenção no sábado, dia do último treinamento de voluntários: detalhes da organização da Fifa e a Arena Corinthians como sede em São Paulo.

De fato, o clima para a Copa na capital paulista ainda não é o clima que esperávamos. Não sei bem o que será do nosso trânsito, do nosso transporte, da nossa segurança frente a vários protestos que acontecerão e muitos outros detalhes extra estádios. Porém, o que posso dizer é que das catracas para dentro, a Fifa promete algo incrível e absurdamente organizado. E olha que quem está falando é alguém que sempre acompanhou o futebol e sempre teve a entidade Fifa como algo a se olhar com desconfiança, com pés atrás. Eu não sei – e essa nem é a minha intenção – falar aqui sobre política do futebol, gastos públicos, lucros, nem nada disso. Não tenho acesso a nenhuma dessas informações. Falo exclusivamente do que tenho visto, como voluntária, na organização, na logística, na operacionalização de um mega evento esportivo.

Há um fluxo para cada ‘fucking’ ação lá dentro. Há uma resposta para cada possível problema, dúvida, ou situação que possa vir acontecer dentro dos estádios e que procedimentos tomar para solucionar. Há uma equipe responsável, formada por inúmeras pessoas, para cada setorzinho, cada área, cada função. E todos eles com um sorriso incrível para te atender. Há mapas, diagramas, Q&As, de coisas que eu nem imaginaria. São detalhes tão pequenos que vão montando, pecinha por pecinha, o maior evento do mundo. Desde a organização de mais de 1200 voluntários só em São Paulo, até o teste de um único microfone. Ainda que o tal “padrão Fifa” tenha virado quase uma chacota nos últimos meses, o padrão Fifa colocado em prática na preparação do evento é dos mais rigorosos. E tudo isso com o intuito de que a experiência proporcionada ali dentro seja a melhor, mais tranquila e mais inesquecível possível. Estou prestes a me convencer de que, dentro do estádio, sim, será a mais inesquecível.

E nossa Arena Corinthians faz parte disso. Ainda que os últimos ajustes sejam aos 45 minutos do segundo tempo, o estádio está deslumbrantemente lindo. Por fora, por dentro, e por muito dentro, nas salas de coletiva de imprensa, vestiários, corredores, áreas de circulação. Isso tudo já sabemos e cansamos de ler por aí. Mas sempre bom repetir como está, de fato, num nível muito acima de qualidade. No entanto, a minha imensa dúvida sempre foi quanto à localização. Transporte, arredores, acesso, tudo isso me era um ponto de interrogação ainda. Hoje, o que posso dizer é que me parece ter sido uma boa escolha.

O espaço que temos para convivência entre torcedores, para chegada ao estádio, para a curtição do pré e pós jogo, interações com stands de patrocinadores e tudo mais é gigantesco. Clubismos à parte – juro que estou tentando – não consigo imaginar isso acontecendo no Morumbi sem a necessidade de imensas e caras obras em diversas ruas e casas do bairro ao redor do local. E todo esse espaço que temos em Itaquera também facilitou para que se pensasse acesso de imprensa, de estacionamento para deficientes, para chegada e saída de cada setor, para espaços VIPs. Os mapas para tudo isso são inúmeros. A Arena Corinthians é linda, mas para a Copa, não bastava apenas uma modernidade, uma cobertura, ou um aumento de lugares. Era preciso mais e, de novo, o que minha percepção diz é que acertamos nisso.

O que me deixa um pouco inquieta com tudo isso é perceber que sempre tivemos a faca e o queijo na mão para fazer tudo espetacular. E será espetacular. Mas talvez um pouco corrido. O jeitinho brasileiro de “no final tudo sai”, sabe? É nítido, seja na Arena, nos arredores, na cidade como um todo, que um pouco mais de tempo e planejamento seria perfeito. Tivemos esse tempo, só não aproveitamos como podia nem planejamos como devia. Capacidade jamais faltou.

Independente de tudo isso, o balanço até agora me faz dizer: Vai ter Copa sim. E, com correria ou não, vai ser incrível! Exatamente como estamos tanto esperando!

Ser um pouco mais Senna

Às vezes eu acordo com muita vontade de desistir. De não trabalhar. De não malhar. De não estudar. De não sair da cama. Às vezes eu opto pelo caminho mais fácil, mais curto, mais prático e depois percebo que o mais longo que poderia me dar o melhor resultado. Tarde demais. Às vezes eu me dou por vencida porque acho que não há mais nada o que fazer. Às vezes eu fico quieta e deixo que passem por cima de mim. Às vezes eu nem tento porque acho que não vou chegar lá. E depois de todas essas vezes, acho que às vezes me falta ser um pouco mais Senna.

Que me perdoem outros tantos ícones do nosso País. Há uma cadeira vazia desde 1994. A cadeira de ídolo era de Senna e desde então, nunca mais ninguém a preencheu tão bem. E esqueçam as pistas. Será que gostamos mesmo tanto de Fórmula 1 assim? Há, claro, aqueles que foram e sempre serão mesmo fãs, mas e no País do futebol? No País como um todo? Sejamos sinceros, somos mesmo? Não criamos a tradição da corrida. Muito pelo contrário. Depois dele, tentamos, arduamente, engatar a paixão por essa prática e andamos aos trancos e barrancos. Pobre Galvão, pode gritar, pouco nos empolga. Tentamos, a partir dele, brilhar novos nomes nas curvas do mundo e, ano após ano, vamos riscando aqueles que surgem e não chegam aos pés. Realmente, é de Senna que sentimos a falta.

Porque ídolo é mais que títulos, é mais que comemorações. Ídolo é aquele que inspira. Que transpira e te inspira a transpirar. Não foi a Fórmula 1 que levantou a bandeira do Brasil pro mundo todo ver. Não foi a Fórmula 1 que superou posições, lá de trás até o pódio, e fez todo mundo ver que dá para ser assim na vida. Não foi a Fórmula 1 que brigou pelo seu lugar e peitou quem precisasse peitar. Não foi a Fórmula 1 que nos ensinou que não vale a pena ser só mais um. Não foi a Fórmula 1 que nos contou que determinação se leva às últimas consequências e que competir não vale nada, o que vale mesmo é ganhar. E não será o futebol, não será o tênis, não será a natação. É preciso ser alguém. E foi Senna.

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Depois de 20 anos de sua morte, e de mais muitos outros anos somados de carreira, é isso que vemos. Um País carente daquele que, seja qual for a modalidade, te mostre que é possível. Que o Brasil é possível. Que o brasileiro é possível. Pode ser até mesmo em um esporte de elite, um esporte de gringos, um esporte visto pela televisão. Senna jamais desistiu e era nas pistas que ele fez todo mundo entender isso. Realmente, é de Senna que sentimos a falta.

É por isso que sua história se prolonga por tanto tempo. Por isso que Senna toca também gerações que só se lembram do “tan tan tan” no domingo, ou até mesmo gerações que nem tiveram a oportunidade de te ver vivo. Talvez Senna nem soubesse a força que tinha nas mãos. Sabia de seu potencial dentro das pistas, mas fora delas era ainda maior. A força que ele transmitia criava motores dentro de nós e desde então vivemos em ponto morto. É desse ronco que estremece lá dentro do peito que sentimos falta.

Eu queria mesmo ser um pouco mais Senna. Eu não quero correr de kart, não quero vestir um capacete, não quero dirigir um carro de Fórmula 1. Eu quero dar a minha partida, acelerar com foco em uma meta, ultrapassar aquilo que pode me vencer, superar hoje o limite de ontem e amanhã o de hoje. Eu quero vibrar com as minhas vitórias e não ter vergonha de levantar uma bandeira. E se eu tiver que bater, que seja sabendo que fiz tudo o que eu podia e amava fazer até aqui. O melhor de mim, sem nenhum medo. Nós, definitivamente, devemos ser um pouco mais Senna.