Viver e ser a Copa – parte I: Os meus 6 jogos no estádio

Explicar o inexplicável. Não, eu não estou falando da vergonhosa derrota por 7×1 da nossa seleção brasileira para a Alemanha. Ainda que isso também seja inexplicável, tenho preferido ficar relembrando e recontando apenas as incríveis experiências que tive nesses meus últimos 30 dias. Elas também foram inexplicáveis. E inesquecíveis. Podem me achar dramática ou exagerada, mas mudaram a minha vida.

Quero contar um pouco disso, tanto para poder compartilhar com quem tiver curiosidade em saber como foi quanto para não correr o risco de deixar o tempo embaralhar as lembranças no meio de tanta coisa inútil no meu cérebro. Portanto, já aviso: o texto será longo, como a maioria dos textos desse blog de boteco.

Por onde começar? Eu já contei um pouco como foram as minhas experiências de voluntária. Falei dos preparativos para a Copa aqui e da visão que tive da organização no dia da abertura em Itaquera aqui. Vou falar, então, menos do evento e mais das pessoas. Porque foram elas que fizeram essa Copa ser tão maravilhosa.

Desde o dia 7 de junho que estou conhecendo pessoas. Aos montes. Dezenas por dia. No dia 7 tive os primeiros contatos com os voluntários com os quais eu trabalharia junto e com o time de funcionários do COL que iriam nos coordenar pelos próximos dias. Todos brasileiros apaixonados de alguma forma pela Copa do Mundo, fosse pelo futebol, fosse pelo turismo, fosse por eventos, fosse pelo Brasil. Quando recebi meu uniforme e minha credencial caiu a ficha de que eu estaria no momento em que mais esperei a vida toda e em que o mundo inteiro olharia pra gente. Desde então, não dormi… E foi sem dormir que passei os próximos dias perambulando pela cidade, sozinha ou com amigos.

Na primeira fase da Copa, trabalhei em quatro jogos: Brasil x Croácia, Uruguai x Inglaterra, Holanda x Chile e Bélgica x Coreia do Sul. Os croatas chegaram fazendo a festa e sendo uma das torcidas mais animadas e criativas do início do torneio. A camisa xadrez estava em todos os lugares e mesmo sem entender uma palavra do que cantavam, era impossível não sorrir quando entoavam suas músicas pelo estádio e pelas ruas. Achei curioso que, dentre todas as torcidas que recebi, eles eram muito mais velhos, muitos grupos de senhores que provavelmente curtem o futebol há anos.

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Uruguai x Inglaterra

Os uruguaios foram sensacionais, me ganharam nos primeiros contatos. Uma alegria em estar aqui e um espírito aventureiro e maloqueiro que os sul-americanos trouxeram pra essa Copa. Estiveram também no meu top10 de nacionalidades com mais homens bonitos. Vê-los comemorar o gol do desempate conta a Inglaterra foi inesquecível, torci muito por eles. Os ingleses, muito diferentes, faziam bem menos bagunça e estavam em menor quantidade. Mas foram criativos nas fantasias e nos apetrechos para torcer. Uma minoria mais louca, visivelmente torcedores mais fanáticos que seguem os clubes nos campeonatos de lá, chegavam com bandeirões, em grupo, bebendo muito, corpos pintados sem nenhum frio quando se fazia quase 10° em Itaquera.

Holanda x Chile

Algo muito parecido aconteceu com os chilenos e holandeses. De um lado, uma torcida alegre, festeira, que grita, dança, canta, sorri, que coloca toda a emoção pra fora. Do outro, mais tímidos, mas que usam a criatividade para mostrar o orgulho por torcer pelo país. Chilenos me deram muitos presentes e definitivamente invadiram a cidade de São Paulo, há quem tenha ficado até de saco cheio do “Chi-chi-chi Le-le-le”. Eu adorei! Já os holandeses, os quais acredito não existir algum com menos de 1,80 de altura, conseguiram ficar vermelhos com o sol do inverno paulista. Mas sorriram muito e adoravam ver que também queríamos fazer festa com eles. Da primeira fase, foi o jogo em que mais fiz bagunça, com um megafone, num cadeirão na rua, mexendo com quem quer que passasse por mim. Tem como não se orgulhar de dar boas-vindas a eles na Copa do meu país, no estádio do meu time e vê-los abrir um sorriso imenso e responder gritando “graciaaaaas” ou “thank yoooou”? Espero que eles não se esqueçam de mim como eu não me esqueço de tantos deles.


Bélgica x Coreia do Sul

O jogo entre belgas e sul-coreanos foi um tanto quanto curioso, eu não sabia o que esperar das duas torcidas. O que descobri foi que os belgas também são lindos e muito altos. Como torcedores, seguiram os protocolos do que eu já tinha visto de europeus, criativos em roupas, fantasias, cores, bandeiras. A coreia do Sul foi toda simpática, ainda que de alguns fosse mais difícil tirar um sorriso e outros fossem menos flexíveis com algumas proibições de estádio. Mas estiveram o tempo todo em pé, cantando, batendo palmas e balançando bandeirinhas. Ainda que não tenha sido o jogo mais empolgante de torcidas, ele foi o que fez eu ver o poder do futebol pelo mundo quando caiu minha ficha que estava no meio de pessoas vindas de tão longe do mundo e com culturas e histórias tão diferentes. Tudo pelo futebol. Foi nessa partida que ouvi o maior número de “obrigados” de maneira gratuita. Sem nem mesmo ter falado com eles, muitos torcedores passavam por mim e agradeciam. Acho que viam em mim uma maneira de dizer a todo o evento um “obrigado por essa incrível experiência”.

Assim acabou a fase de grupos e nesse intervalo entre um jogo e outro, vivi a rua, a Fan Fest, a Vila Madalena e as muitas loucuras que conto um pouco aqui na parte II (em breve). Dividi apenas para que a leitura fique mais fácil e menos eterna.

Oitavas-de-final: Argentina x Suíça

Então vieram as oitavas-de-final e, com as classificações dos grupos, descobri que eu trabalharia no jogo entre Argentina e Suíça. Óbvio que fiquei ansiosa. Quem não queria ver um jogo dos hermanos? Eu não queria vê-los se dando bem nessa Copa, mas queria ter a experiência de conhecer a torcida deles e de ver Messi jogar. A rivalidade entre nós no futebol é, pra mim, imensa, queria sentir isso ao vivo. Mas eu sempre adorei o povo que sempre me recebeu tão bem em seu país. Seria uma festa e tanto!

E foi! A esmagadora maioria que chegava ao jogo era argentina. Eles uniram um pouco do que vi em torcidas sul-americanas e europeias (e nessa parte eles ficariam felizes de ler isso, já que acham que são os europeus da América Latina, rss). Bagunçam como nós, cantam, pulam, gritam, mas são geniais em fantasias, cartazes, bandeiras e acessórios. Dentro do estádio, diferente do que muitos disseram, não foi um apoio incondicional durante 90 minutos não. Talvez porque os brasileiros presentes, que também eram muitos, se empenharam em responder aos cantos a todo momento e conseguiram superar o volume deles. A briga entre “Brasil, decime que se siente” e “1000 gols, 1000 gols” foi acirrada, sem contar as brigas de verdade, algumas poucas. Para não deixar os suíços de lado, eles também foram criativos, mesmo que em pouca quantidade. Nunca imaginei que fosse vê-los cantando “Suíça, Suíça, ai se eu te pego” e nem que eles teriam uma musiquinha que só canta “olê, olê, chocolate”. As duas nacionalidades, de parabéns também pela beleza de seus torcedores.

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Semifinal: Argentina x Holanda

E então, o último jogo na Arena Corinthians foi Argentina e Holanda. Além da expectativa por um jogo disputado dentro de campo, tive a tensão de como seria encontrá-los um dia após a nossa fatídica eliminação. Foi duríssimo vê-los chegar felizes e ter que tirar forças de onde eu não tinha. Confesso que esperava mais zueiras diretamente comigo, que fico muito à vista dos torcedores que chegam, mas na real não foram tantas. Um bom dia com gestos de mão fazendo o número sete ou alguma letra de música que eu nem sempre entendia tudo o que dizia foi o que rolou. Ainda que tenha sido doloroso, as brincadeiras eram feitas sem direcionar a nenhum voluntário ou nenhuma ofensa pessoal. Obrigada pela compreensão.

Doído mesmo foi vê-los saírem fazendo uma festa do estádio. Meu desejo não era vê-los chorar, mas sim poder entrar no meio da roda e pular junto, cantar qualquer coisa junto por também estar feliz. Mas naquele dia não dava pra tirar felicidade de onde não tinha. Fiz meu trabalho, sorrindo sempre e também foi sensacional, mas vou lembrar sempre que poderia ter sido diferente. Os holandeses, dessa vez, eram uma quantidade menor do que estiveram presentes no jogo contra o Chile e foram ainda mais discretos. Primeiro porque os argentinos foram tão exaltados que era difícil que holandeses ganhassem espaço, depois porque na saída, os laranjas não estavam muito felizes.

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Enfim, celebrei o último dia na festa para os voluntários, lá mesmo, nos bastidores da Arena. Com um trabalho imensamente reconhecido pelos coordenadores, pelo COL e pela FIFA. Como voluntária, não há o que reclamar. São N fatores que me levam a dizer que a Copa mudou a minha vida. Nessa parte I, o que posso dizer é que engrandeci ainda mais a minha paixão pelo voluntariado, seja ele social, ambiental, educativo ou apenas de entretenimento. É lindo fazer algo que você vê, ali, na sua frente, a importância da sua presença em forma de agradecimentos, sorrisos e risadas. Senti também o poder de integração que o esporte tem, entendi isso de maneira ainda mais forte do que eu já imaginava. Ele une pessoas, quebra barreiras de idiomas, culturas, filosofias. E mais do que isso, vi que paixões, como a do futebol, nos fazem tirar qualquer máscara. Vi ali as pessoas de verdade, sem nenhuma necessidade de ser um personagem, de passar alguma impressão certa ou errada ou de aparentar algum estereótipo imposto. Eram eles, nus e crus, numa curtição louca. E eu era eu, aberta a todos eles.

Dos meus jogos na Arena Corinthians, vou levar cada torcida, cada musiquinha que aprendi – e foram muitas – cada presente que ganhei dos turistas, cada xaveco ou pedido de casamento que recebi, cada cara lindo que vi e me apaixonei, cada foto, cada setor em que trabalhei, cada imagem do campo, de dia e iluminado de noite, cada grito de gol, cada jogador importante que vi, cada voluntário que me ajudou, cada pessoa ilustre que recebi, cada palavra gringa que aprendi, cada noite sem dormir de ansiedade, cada frio na barriga no caminho ao estádio. Quero lembrar de tudo, tudo mesmo, pra não deixar isso acabar em mim nunca mais.

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