Viver e ser a Copa – parte II: Com os gringos pelas ruas

Quando a paixão é grande, ela transborda. E foi o que aconteceu na Copa. Além de toda a linda festa dentro dos estádios, que contei a minha experiência aqui, a energia tomou as ruas. E eu curti isso intensamente também. Nos estádios vivi a organização do torneio, a beleza do futebol jogado, o deslumbre das arquibancadas lotadas em uma festa inesquecível. Nas ruas, eu vivi as histórias malucas, o clima da socialização com gente de todos os lugares. Isso eu também preciso contar, pra jamais esquecer.

A Fan Fest foi, sem dúvidas, palco pra toda essa integração. Não só pra mim, é o que ouvi de todo mundo que lá frequentou. Para os chatos de plantão que acharam que “teriam uma faca no baço” ao se unir ao desconhecido no coração do centro de São Paulo, só lamento. Perderam o que tinha de mais rico na Copa. O mesmo aconteceu pela Avenida Paulista e pela Vila Madalena. Até mesmo nos shoppings, por que não? Conheci um casal costarriquenho trocando figurinhas no chão do Shopping Eldorado.

Foram nesses lugares que eu fiz amigos do mundo todo. Cheguei a passar quase 10 horas em pé, na Fan Fest, mudando de torcida a cada jogo que começava. Eu não vou esquecer do primeiro dia de rua, um dia antes da abertura, no boteco na frente do MASP, onde croatas, chilenos, mexicanos, holandeses, brasileiros, americanos, australianos e colombianos (certamente esqueci alguma nacionalidade) se provocavam e cantavam, um por vez, suas músicas. Fechamos a calçada.

Na Vila Madalena eu assisti EUA x Gana e me apaixonei pelos americanos. Eu jamais esperava vê-los tão enlouquecidos por um esporte que não pertence ao seu país e comemorar gol como nós. Foi lá que conversei mais tempo com o primeiro gringo, que estava em São Paulo sem nenhum ingresso para jogos, mas veio mesmo assim, para curtir o clima daqui. Foi com ele que dei risada quando me contou que foi visitar “plantações de caipirinhas” e que, com muito custo, descobri que, na verdade, se tratavam de plantações de cana. Foi dele que ouvi que, perto do que ele vive em Chicago, o metrô daqui é “fantast-fucking-amazing”, assim, tudo junto numa palavra que não existe, pra intensificar bem o que ele queria dizer. Ele estava completamente apaixonado.

Num bar da Augusta, parei para ver Chile x Austrália, aparentemente um jogo tranquilo. Mas bastou o bar encher de colombianos, torcendo, como nós, para qualquer país sul-americano, para aquilo virar uma festa de “Chi chi chi, Le le le!”. O mundo se sentiu tão em casa por aqui que um senhor, alemão, resolveu interagir, sem nenhuma daquela frieza que tanto dizem deles. Cinco minutos bastaram para descobrirmos que estávamos diante de um ex-jogador profissional da Bundesliga, que já tem planos e negócios bem encaminhados para vir morar no Brasil.

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O ex-jogador profissional Karl-Heinz Granitza

Também na Vila Madalena, passei o sufoco de achar um bar para assistir Brasil x México. Preços absurdos, ruas intransitáveis, mas que valeram à pena. Apesar do estresse de se assistir a um jogo em bar, com centenas de cornetas em volta, era aquele clima que eu queria sentir e que meu sofá não me daria.

Mais um jogo dos EUA ia acontecer e depois de terem me conquistado, não podia não assistir à partida ao lado deles. A Fan Fest para Portugal x EUA estava tomada… De americanos! Entre as musiquinhas da Copa que mais grudaram na minha cabeça, está “I believe that we will win”. Num estilo a la torcida organizada, eles cantavam juntos, passavam bandeirões e se emocionavam muito. Como esquecer a cena de uma americana tentando aprender a sambar, quando, na verdade, parecia mais uma minhoca? Sem contar, claro, que entraram para a lista de torcedores mais bonitos dessa Copa.

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Como todo mundo já comentou, essa Copa foi mesmo dos latinos. Ok, nenhum deles levou o título, mas ganharam, de longe, como povo mais carismático e festeiro. A fase de mata-mata começou e foi de partir o coração assistir Holanda x México ao lado dos mexicanos na Fan Fest. Guerreiros, torceram muito e tiveram a torcida de quase 100% do público que ali estavam. A coisa ficou ainda mais emocionante ao assistir à disputa de pênaltis da Costa Rica com a Grécia. O Anhangabaú vibrou com a classificação dos costarriquenhos como se fosse a nossa vitória.

Nessa altura do campeonato, a cidade começava a se encher de argentinos, já que seria em São Paulo o próximo jogo deles pelas oitavas-de-final. “América Latina, menos Argentina!” era o que os latinos se uniam para cantar. Uma brincadeira deliciosa de se viver, enquanto eles respondiam com suas pegajosas músicas. Foi nesse dia que conheci três argentinos “buena onda” que não dei muita atenção, mas que virariam grandes amigos pelos próximos dias. Era assim o tempo todo, conversávamos com gringos, dávamos risada, nos provocávamos, trocávamos telefone e saíamos andando. Não havia motivos para não ser simpáticos quando eles queriam tanto interagir e tinham estampado nas testas a felicidade por estar na Copa do Mundo. Mas havia tanta gente pra papear e conhecer que não se passava mais de 10 minutos com cada amigo novo.

Até com japoneses, e toda a dificuldade da língua, eu interagi. É simplesmente gratificante poder ajuda-los ao ver que tinham um guia turístico de São Paulo todo em letrinhas indecifráveis, mas ainda assim não sabiam como chegar na Vila Madalena porque não conseguiam pronunciar a palavra “Aspicuelta” para o táxi. Dei a direção ao motorista, expliquei, em inglês, a eles quanto tempo daria até lá para que o taxista não os enganasse e foram. Sei lá se chegaram. Espero que sim.

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Com quase 65 mil pessoas na Arena Corinthians e perto de 20 mil pessoas na Fan Fest, encontrei os tais três argentinos novamente e rimos juntos de tamanha coincidência. A gente precisava tomar uma cerveja juntos então, não poderíamos deixar passar esses encontros. Foi com eles que, por 4 ou 5 dias, perambulei pela cidade, de dia e de madrugada a pé, bebi Fernet com Coca-Cola num quarto de hotel no coração da República, improvisado numa garrafa cortada com um cabo de escova de dente para misturar, fizemos pizzada em minha casa, viramos a madrugada na Vila Madalena, na Augusta, em pubs. Tiramos o sarro da cara um do outro, ajudei-os a tentar xavecar mulheres, passamos telefone de chefes com nomes errados para desconhecidos, ensinei a dançar o Lepo-lepo, prometemos ir à Rússia juntos. Em menos de uma semana, pude ouvir dessas pessoas praticamente desconhecidas que eu era “buena onda” e que pessoas do bem atraem outras pessoas do bem. Que eles não tinham dúvidas de que eu seria uma pessoa muito feliz na minha vida.

Foi muito difícil dizer tchau para pessoas tão queridas, mas sei que fizemos ali uma amizade que ficou. Fomos irmãos por dias, porque iríamos nos desfazer disso? Dia após dia, ainda nos provocamos por whastapp e fazemos planos de eu ir à Buenos Aires ou eles à São Paulo e fazermos bagunça por aí. “Buena Onda” foi eleita, por mim, a expressão da minha Copa.

Eles foram e então chegaram outros. Quando a Copa se caminhava para o fim e o Brasil já havia sido eliminado, encontrei canadenses e indianos. Mas peraí, o que eles estavam fazendo aqui se nem suas seleções jogaram? Pois é, amigos, pois é. Vieram para curtir o evento mais amado e esperado do mundo e visitar o país que sempre quiseram conhecer. A minha saga de aventuras continuou, de bar em bar, em samba, em balada, apresentando a caipirinha, a cachaça, a polenta frita. Foi com eles que sentei pra conversar só sobre o que eles viram de curioso e diferente por aqui, que pra nós é mais que corriqueiro. Foi deles que ouvi as coisas boas que o nosso país tem e nem damos o devido valor. Foi com eles que encontrei dois rapazes do Qatar perguntando para mim por onde eles podiam encontrar drogas. Foi com eles que encontrei japoneses ainda em São Paulo apenas para curtir o resto da Copa. Mais uma despedida difícil cheio de “obrigado por ter feito tudo o que fez pela gente. Mantenha contato, nós voltaremos um dia e te esperamos em nosso país. Vocês, brasileiros, são incríveis.”

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A Copa acabou ontem e eu já estou toda saudosa de ter vivido tudo isso. Desde ontem à noite, meu whatsapp está pulando de mensagens de “foi tudo lindo, obrigado, chegamos bem em nossas cidades” em espanhol, em inglês, em portunhol. Mas tem também as mensagens de “ estou de volta à São Paulo para meu último dia antes de embarcar, vamos tomar uma cerveja?”. É certo que ainda não acabou.

Na parte I, falei um pouco dos fatores que mudaram a minha vida ao trabalhar como voluntária no estádio. Nessa parte II, falo dos outros fatores que me mudaram ao viver o que tinha de melhor pelas ruas da Copa. Mais uma vez, quebrei barreiras. Do idioma, da cultura, da filosofia. Vi como existem pessoas boas nesse mundão todo a fora e decidi que é isso que quero perto de mim. Foi como um soco no estômago sentir que há muita energia ruim que podemos e devemos eliminar e tentar, ao máximo, manter perto de nós apenas as boas, as pessoas que emanam as coisas positivas. Vi como temos um povo desunido e desiludido, que precisa abrir mais os olhos para enxergar o que temos de melhor e amar mais nosso país. E que temos força pra ser mais, mas nem em nós mesmos acreditamos. O brasileiro é o melhor e o pior do Brasil e talvez o que menos ame seu próprio local dentre todas as nações. Eles nos amam e nós não.

Vi, mais uma vez, que paixões, como a do futebol, deixam as pessoas abertas, nuas, sem máscaras e dispostas para a vida e que é assim que deveríamos ser em tempo integral. Em que outra situação eu faria amigos que se tornariam irmãos, que confiariam em mim como confiei neles, porque tínhamos ali apenas a vontade de curtir e interagir com pessoas de gostos em comum? Não havia nenhum outro interesse na frente. Chega de teatros, de por o profissional à frente do pessoal, de sempre tentar se dar bem em algo, de viver pro sucesso, pro dinheiro e pra fama, de sempre ter uma intenção em tudo, quando o melhor da vida está nas pessoas e em estar rodeada delas pura e simplesmente. Está em conhecer o mundo, em trocar experiências e aprendizados, em jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Casa, escritório, faculdade, academia, casa, escritório… Sério mesmo que é assim que queremos viver quando há um mundo de sorrisos e abraços por aí? Que a Copa tenha mostrado isso a muitos brasileiros assim como mostrou a mim. E que a gente coloque as asas de fora mesmo. Porque eu decidi que quero voar.

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