Viver e ser a Copa – parte III: Uma brasileira longe do Brasil

Por Paula Pezutto

Desde quando decidi viver essa nova experiência na Austrália sabia que uma das épocas que mais sentiria falta de estar no Brasil seria na Copa do Mundo. Cheguei a repensar, afinal é a minha paixão pelo futebol. São Copas acompanhadas fielmente desde 1990 na Itália, – a primeira da qual tenho recordações – depois desejei muito estar em algum estádio lá nos EUA (quem não se lembra de onde estava quando aconteceu aquele chute pra fora no pênalti do Baggio? No meu caso, férias na praia, com comemoração na avenida com meu primo), depois inconformada com o vice da França em 1998, em 2002 acordando de madrugada em todos os jogos na Coréia/Japão e enfim até chegarmos ao Penta e às eliminações de 2006 e 2010. E logo agora quando o MAIOR EVENTO da bola aconteceria no meu País, logo no “País do Futebol”, eu não estaria para acompanhar de pertinho e fazer parte de todo esse clima que amo fazer parte.

Mas enfim, a decisão estava tomada! E como dizem, cada escolha uma renúncia e essa foi uma delas que tive que encarar aqui do outro lado do mundo. Mas com isso eu também tinha a chance de conhecer um outro tipo de torcedor. Na verdade, no caso de Perth, muitos outros tipos de torcedores.

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O Australiano não tem muita paixão pelo nosso futebol, seu negócio mesmo é o Football, um jogo com a mistura de futebol americano e rugby, que ainda estou tentando entender. Mas uma admiração existe, independente do estilo e dessa vez a sua seleção também estaria lá no Brasil para disputar a Copa do Mundo. Por isso, em muitos lugares que fui e pessoas que eu conhecia, o assunto era o mesmo quando eu dava a minha resposta ao “Where are you from?” Muitos não se conformavam comigo, o que eu estava fazendo aqui? A Copa do Mundo no meu País e eu aqui.

Foi engraçado em uma noite que um australiano me parou na rua para perguntar uma informação – claro, com minha aparência de australiana, ele realmente achou que eu saberia ajudá-lo. Ao notar meu “accent” brazuca sua próxima pergunta foi: “É claro que você vai voltar para o Brasil para assistir a Copa né?”. E ao ouvir minha resposta negativa, me mandou logo na cara: “ARE YOU CRAZY?”. Sim, era o que a maioria dos gringos me falavam ao tocar nesse assunto: que eu estava louca. Muitas histórias… Um ‘aussie’ que estava empolgadíssimo para conhecer o Rio de Janeiro e Salvador discutiu comigo quando sugeri que fosse a São Paulo também. O professor que por onde me via, falava sobre a Copa e queria saber da minha expectativa. O mais bacana de tudo isso, foi ver como em Perth convivemos com muito mais estrangeiros do que com os próprios australianos. Pude também conhecer um pouco da reação dos diversos torcedores do mundo.

Conheci o Belga que não cansava de me dizer que sua seleção não iria pra frente, mas me fez questão de mostrar seu grande astro, contar informações de onde jogava e o que falavam dele. Os coreanos que se surpreenderam com o primeiro empate do seu time e me repetiam a todo momento: “It´s a miracle!”. Os árabes que até camisa para o Brasil fizeram! O suiço que por ter também descendência sul americana escolheu torcer para o Uruguai – inclusive, acompanhei sua decepção ao serem eliminados pela Colômbia.

Por sinal, foi o jogo que mais me surpreendeu. Junto do Brasil, a torcida colombiana foi a mais apaixonada durante a Copa. Uma amiga me contou tudo no seu primeiro jogo. Com a ausência de Falcão Garcia, que estava lesionado e não jogaria o Mundial, fui orientada a ficar de olho em James Rodriguez. Segundo ela, “seu namorado”. E ela estava mais do que certa! O menino realmente arrebentou!

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Acordei em cada madrugada que pude, mesmo com o inverno chegando nos 3° C. Contei os minutos para ver a abertura e a estreia da nossa seleção, em um churrasco nos reunimos para tentar estar mais próximo do Brasil, Também assisti o confronto com uma minoria mexicana, já contra o Chile, me irritei com a quantidade de gringos torcendo contra o Brasil. Torci muito nos jogos dos Socceroos, como é conhecida a seleção australiana, e fiquei feliz em ver sua boa participação, contando com um dos gols mais bonitos da competição. E vibrei com as atuações da Colômbia, mais uma vez, os que mais me surpreenderam.

Infelizmente fui obrigada a engolir as gracinhas de um chefe alemão depois da decepcionante eliminação por 7×1. No dia seguinte, ainda de cabeça cheia, ganhamos 7Up e chocolate alemão. Faz parte! É o futebol! Hoje, sem dúvida, ele está muito mais feliz com seu time campeão e eu, mais uma vez acordada na madrugada, compartilho um pouquinho com ele, afinal, seria um castigo ver nosso maior rival, a Argentina, levar a Taça na nossa casa. No Brasil não!

E assim foi… Daqui, recebi fotos dos amigos no Brasil que se revezam entre Vila Madalena, estádios pelo Brasil (do CORINTHIANS, inclusive), reuniões com os amigos e com a Família. Foram com certeza, dias de grande saudade, com aquela vontade de estar lá pertinho e pra ver o inesquecível. Marcante! Foi a Copa do meu País, vivenciada do outro lado do mundo! E eu poderei dizer, daqui foi LINDO DE VER!

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Viver e ser a Copa – parte II: Com os gringos pelas ruas

Quando a paixão é grande, ela transborda. E foi o que aconteceu na Copa. Além de toda a linda festa dentro dos estádios, que contei a minha experiência aqui, a energia tomou as ruas. E eu curti isso intensamente também. Nos estádios vivi a organização do torneio, a beleza do futebol jogado, o deslumbre das arquibancadas lotadas em uma festa inesquecível. Nas ruas, eu vivi as histórias malucas, o clima da socialização com gente de todos os lugares. Isso eu também preciso contar, pra jamais esquecer.

A Fan Fest foi, sem dúvidas, palco pra toda essa integração. Não só pra mim, é o que ouvi de todo mundo que lá frequentou. Para os chatos de plantão que acharam que “teriam uma faca no baço” ao se unir ao desconhecido no coração do centro de São Paulo, só lamento. Perderam o que tinha de mais rico na Copa. O mesmo aconteceu pela Avenida Paulista e pela Vila Madalena. Até mesmo nos shoppings, por que não? Conheci um casal costarriquenho trocando figurinhas no chão do Shopping Eldorado.

Foram nesses lugares que eu fiz amigos do mundo todo. Cheguei a passar quase 10 horas em pé, na Fan Fest, mudando de torcida a cada jogo que começava. Eu não vou esquecer do primeiro dia de rua, um dia antes da abertura, no boteco na frente do MASP, onde croatas, chilenos, mexicanos, holandeses, brasileiros, americanos, australianos e colombianos (certamente esqueci alguma nacionalidade) se provocavam e cantavam, um por vez, suas músicas. Fechamos a calçada.

Na Vila Madalena eu assisti EUA x Gana e me apaixonei pelos americanos. Eu jamais esperava vê-los tão enlouquecidos por um esporte que não pertence ao seu país e comemorar gol como nós. Foi lá que conversei mais tempo com o primeiro gringo, que estava em São Paulo sem nenhum ingresso para jogos, mas veio mesmo assim, para curtir o clima daqui. Foi com ele que dei risada quando me contou que foi visitar “plantações de caipirinhas” e que, com muito custo, descobri que, na verdade, se tratavam de plantações de cana. Foi dele que ouvi que, perto do que ele vive em Chicago, o metrô daqui é “fantast-fucking-amazing”, assim, tudo junto numa palavra que não existe, pra intensificar bem o que ele queria dizer. Ele estava completamente apaixonado.

Num bar da Augusta, parei para ver Chile x Austrália, aparentemente um jogo tranquilo. Mas bastou o bar encher de colombianos, torcendo, como nós, para qualquer país sul-americano, para aquilo virar uma festa de “Chi chi chi, Le le le!”. O mundo se sentiu tão em casa por aqui que um senhor, alemão, resolveu interagir, sem nenhuma daquela frieza que tanto dizem deles. Cinco minutos bastaram para descobrirmos que estávamos diante de um ex-jogador profissional da Bundesliga, que já tem planos e negócios bem encaminhados para vir morar no Brasil.

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O ex-jogador profissional Karl-Heinz Granitza

Também na Vila Madalena, passei o sufoco de achar um bar para assistir Brasil x México. Preços absurdos, ruas intransitáveis, mas que valeram à pena. Apesar do estresse de se assistir a um jogo em bar, com centenas de cornetas em volta, era aquele clima que eu queria sentir e que meu sofá não me daria.

Mais um jogo dos EUA ia acontecer e depois de terem me conquistado, não podia não assistir à partida ao lado deles. A Fan Fest para Portugal x EUA estava tomada… De americanos! Entre as musiquinhas da Copa que mais grudaram na minha cabeça, está “I believe that we will win”. Num estilo a la torcida organizada, eles cantavam juntos, passavam bandeirões e se emocionavam muito. Como esquecer a cena de uma americana tentando aprender a sambar, quando, na verdade, parecia mais uma minhoca? Sem contar, claro, que entraram para a lista de torcedores mais bonitos dessa Copa.

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Como todo mundo já comentou, essa Copa foi mesmo dos latinos. Ok, nenhum deles levou o título, mas ganharam, de longe, como povo mais carismático e festeiro. A fase de mata-mata começou e foi de partir o coração assistir Holanda x México ao lado dos mexicanos na Fan Fest. Guerreiros, torceram muito e tiveram a torcida de quase 100% do público que ali estavam. A coisa ficou ainda mais emocionante ao assistir à disputa de pênaltis da Costa Rica com a Grécia. O Anhangabaú vibrou com a classificação dos costarriquenhos como se fosse a nossa vitória.

Nessa altura do campeonato, a cidade começava a se encher de argentinos, já que seria em São Paulo o próximo jogo deles pelas oitavas-de-final. “América Latina, menos Argentina!” era o que os latinos se uniam para cantar. Uma brincadeira deliciosa de se viver, enquanto eles respondiam com suas pegajosas músicas. Foi nesse dia que conheci três argentinos “buena onda” que não dei muita atenção, mas que virariam grandes amigos pelos próximos dias. Era assim o tempo todo, conversávamos com gringos, dávamos risada, nos provocávamos, trocávamos telefone e saíamos andando. Não havia motivos para não ser simpáticos quando eles queriam tanto interagir e tinham estampado nas testas a felicidade por estar na Copa do Mundo. Mas havia tanta gente pra papear e conhecer que não se passava mais de 10 minutos com cada amigo novo.

Até com japoneses, e toda a dificuldade da língua, eu interagi. É simplesmente gratificante poder ajuda-los ao ver que tinham um guia turístico de São Paulo todo em letrinhas indecifráveis, mas ainda assim não sabiam como chegar na Vila Madalena porque não conseguiam pronunciar a palavra “Aspicuelta” para o táxi. Dei a direção ao motorista, expliquei, em inglês, a eles quanto tempo daria até lá para que o taxista não os enganasse e foram. Sei lá se chegaram. Espero que sim.

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Com quase 65 mil pessoas na Arena Corinthians e perto de 20 mil pessoas na Fan Fest, encontrei os tais três argentinos novamente e rimos juntos de tamanha coincidência. A gente precisava tomar uma cerveja juntos então, não poderíamos deixar passar esses encontros. Foi com eles que, por 4 ou 5 dias, perambulei pela cidade, de dia e de madrugada a pé, bebi Fernet com Coca-Cola num quarto de hotel no coração da República, improvisado numa garrafa cortada com um cabo de escova de dente para misturar, fizemos pizzada em minha casa, viramos a madrugada na Vila Madalena, na Augusta, em pubs. Tiramos o sarro da cara um do outro, ajudei-os a tentar xavecar mulheres, passamos telefone de chefes com nomes errados para desconhecidos, ensinei a dançar o Lepo-lepo, prometemos ir à Rússia juntos. Em menos de uma semana, pude ouvir dessas pessoas praticamente desconhecidas que eu era “buena onda” e que pessoas do bem atraem outras pessoas do bem. Que eles não tinham dúvidas de que eu seria uma pessoa muito feliz na minha vida.

Foi muito difícil dizer tchau para pessoas tão queridas, mas sei que fizemos ali uma amizade que ficou. Fomos irmãos por dias, porque iríamos nos desfazer disso? Dia após dia, ainda nos provocamos por whastapp e fazemos planos de eu ir à Buenos Aires ou eles à São Paulo e fazermos bagunça por aí. “Buena Onda” foi eleita, por mim, a expressão da minha Copa.

Eles foram e então chegaram outros. Quando a Copa se caminhava para o fim e o Brasil já havia sido eliminado, encontrei canadenses e indianos. Mas peraí, o que eles estavam fazendo aqui se nem suas seleções jogaram? Pois é, amigos, pois é. Vieram para curtir o evento mais amado e esperado do mundo e visitar o país que sempre quiseram conhecer. A minha saga de aventuras continuou, de bar em bar, em samba, em balada, apresentando a caipirinha, a cachaça, a polenta frita. Foi com eles que sentei pra conversar só sobre o que eles viram de curioso e diferente por aqui, que pra nós é mais que corriqueiro. Foi deles que ouvi as coisas boas que o nosso país tem e nem damos o devido valor. Foi com eles que encontrei dois rapazes do Qatar perguntando para mim por onde eles podiam encontrar drogas. Foi com eles que encontrei japoneses ainda em São Paulo apenas para curtir o resto da Copa. Mais uma despedida difícil cheio de “obrigado por ter feito tudo o que fez pela gente. Mantenha contato, nós voltaremos um dia e te esperamos em nosso país. Vocês, brasileiros, são incríveis.”

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A Copa acabou ontem e eu já estou toda saudosa de ter vivido tudo isso. Desde ontem à noite, meu whatsapp está pulando de mensagens de “foi tudo lindo, obrigado, chegamos bem em nossas cidades” em espanhol, em inglês, em portunhol. Mas tem também as mensagens de “ estou de volta à São Paulo para meu último dia antes de embarcar, vamos tomar uma cerveja?”. É certo que ainda não acabou.

Na parte I, falei um pouco dos fatores que mudaram a minha vida ao trabalhar como voluntária no estádio. Nessa parte II, falo dos outros fatores que me mudaram ao viver o que tinha de melhor pelas ruas da Copa. Mais uma vez, quebrei barreiras. Do idioma, da cultura, da filosofia. Vi como existem pessoas boas nesse mundão todo a fora e decidi que é isso que quero perto de mim. Foi como um soco no estômago sentir que há muita energia ruim que podemos e devemos eliminar e tentar, ao máximo, manter perto de nós apenas as boas, as pessoas que emanam as coisas positivas. Vi como temos um povo desunido e desiludido, que precisa abrir mais os olhos para enxergar o que temos de melhor e amar mais nosso país. E que temos força pra ser mais, mas nem em nós mesmos acreditamos. O brasileiro é o melhor e o pior do Brasil e talvez o que menos ame seu próprio local dentre todas as nações. Eles nos amam e nós não.

Vi, mais uma vez, que paixões, como a do futebol, deixam as pessoas abertas, nuas, sem máscaras e dispostas para a vida e que é assim que deveríamos ser em tempo integral. Em que outra situação eu faria amigos que se tornariam irmãos, que confiariam em mim como confiei neles, porque tínhamos ali apenas a vontade de curtir e interagir com pessoas de gostos em comum? Não havia nenhum outro interesse na frente. Chega de teatros, de por o profissional à frente do pessoal, de sempre tentar se dar bem em algo, de viver pro sucesso, pro dinheiro e pra fama, de sempre ter uma intenção em tudo, quando o melhor da vida está nas pessoas e em estar rodeada delas pura e simplesmente. Está em conhecer o mundo, em trocar experiências e aprendizados, em jogar conversa fora e rir de nós mesmos. Casa, escritório, faculdade, academia, casa, escritório… Sério mesmo que é assim que queremos viver quando há um mundo de sorrisos e abraços por aí? Que a Copa tenha mostrado isso a muitos brasileiros assim como mostrou a mim. E que a gente coloque as asas de fora mesmo. Porque eu decidi que quero voar.

Viver e ser a Copa – parte I: Os meus 6 jogos no estádio

Explicar o inexplicável. Não, eu não estou falando da vergonhosa derrota por 7×1 da nossa seleção brasileira para a Alemanha. Ainda que isso também seja inexplicável, tenho preferido ficar relembrando e recontando apenas as incríveis experiências que tive nesses meus últimos 30 dias. Elas também foram inexplicáveis. E inesquecíveis. Podem me achar dramática ou exagerada, mas mudaram a minha vida.

Quero contar um pouco disso, tanto para poder compartilhar com quem tiver curiosidade em saber como foi quanto para não correr o risco de deixar o tempo embaralhar as lembranças no meio de tanta coisa inútil no meu cérebro. Portanto, já aviso: o texto será longo, como a maioria dos textos desse blog de boteco.

Por onde começar? Eu já contei um pouco como foram as minhas experiências de voluntária. Falei dos preparativos para a Copa aqui e da visão que tive da organização no dia da abertura em Itaquera aqui. Vou falar, então, menos do evento e mais das pessoas. Porque foram elas que fizeram essa Copa ser tão maravilhosa.

Desde o dia 7 de junho que estou conhecendo pessoas. Aos montes. Dezenas por dia. No dia 7 tive os primeiros contatos com os voluntários com os quais eu trabalharia junto e com o time de funcionários do COL que iriam nos coordenar pelos próximos dias. Todos brasileiros apaixonados de alguma forma pela Copa do Mundo, fosse pelo futebol, fosse pelo turismo, fosse por eventos, fosse pelo Brasil. Quando recebi meu uniforme e minha credencial caiu a ficha de que eu estaria no momento em que mais esperei a vida toda e em que o mundo inteiro olharia pra gente. Desde então, não dormi… E foi sem dormir que passei os próximos dias perambulando pela cidade, sozinha ou com amigos.

Na primeira fase da Copa, trabalhei em quatro jogos: Brasil x Croácia, Uruguai x Inglaterra, Holanda x Chile e Bélgica x Coreia do Sul. Os croatas chegaram fazendo a festa e sendo uma das torcidas mais animadas e criativas do início do torneio. A camisa xadrez estava em todos os lugares e mesmo sem entender uma palavra do que cantavam, era impossível não sorrir quando entoavam suas músicas pelo estádio e pelas ruas. Achei curioso que, dentre todas as torcidas que recebi, eles eram muito mais velhos, muitos grupos de senhores que provavelmente curtem o futebol há anos.

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Uruguai x Inglaterra

Os uruguaios foram sensacionais, me ganharam nos primeiros contatos. Uma alegria em estar aqui e um espírito aventureiro e maloqueiro que os sul-americanos trouxeram pra essa Copa. Estiveram também no meu top10 de nacionalidades com mais homens bonitos. Vê-los comemorar o gol do desempate conta a Inglaterra foi inesquecível, torci muito por eles. Os ingleses, muito diferentes, faziam bem menos bagunça e estavam em menor quantidade. Mas foram criativos nas fantasias e nos apetrechos para torcer. Uma minoria mais louca, visivelmente torcedores mais fanáticos que seguem os clubes nos campeonatos de lá, chegavam com bandeirões, em grupo, bebendo muito, corpos pintados sem nenhum frio quando se fazia quase 10° em Itaquera.

Holanda x Chile

Algo muito parecido aconteceu com os chilenos e holandeses. De um lado, uma torcida alegre, festeira, que grita, dança, canta, sorri, que coloca toda a emoção pra fora. Do outro, mais tímidos, mas que usam a criatividade para mostrar o orgulho por torcer pelo país. Chilenos me deram muitos presentes e definitivamente invadiram a cidade de São Paulo, há quem tenha ficado até de saco cheio do “Chi-chi-chi Le-le-le”. Eu adorei! Já os holandeses, os quais acredito não existir algum com menos de 1,80 de altura, conseguiram ficar vermelhos com o sol do inverno paulista. Mas sorriram muito e adoravam ver que também queríamos fazer festa com eles. Da primeira fase, foi o jogo em que mais fiz bagunça, com um megafone, num cadeirão na rua, mexendo com quem quer que passasse por mim. Tem como não se orgulhar de dar boas-vindas a eles na Copa do meu país, no estádio do meu time e vê-los abrir um sorriso imenso e responder gritando “graciaaaaas” ou “thank yoooou”? Espero que eles não se esqueçam de mim como eu não me esqueço de tantos deles.


Bélgica x Coreia do Sul

O jogo entre belgas e sul-coreanos foi um tanto quanto curioso, eu não sabia o que esperar das duas torcidas. O que descobri foi que os belgas também são lindos e muito altos. Como torcedores, seguiram os protocolos do que eu já tinha visto de europeus, criativos em roupas, fantasias, cores, bandeiras. A coreia do Sul foi toda simpática, ainda que de alguns fosse mais difícil tirar um sorriso e outros fossem menos flexíveis com algumas proibições de estádio. Mas estiveram o tempo todo em pé, cantando, batendo palmas e balançando bandeirinhas. Ainda que não tenha sido o jogo mais empolgante de torcidas, ele foi o que fez eu ver o poder do futebol pelo mundo quando caiu minha ficha que estava no meio de pessoas vindas de tão longe do mundo e com culturas e histórias tão diferentes. Tudo pelo futebol. Foi nessa partida que ouvi o maior número de “obrigados” de maneira gratuita. Sem nem mesmo ter falado com eles, muitos torcedores passavam por mim e agradeciam. Acho que viam em mim uma maneira de dizer a todo o evento um “obrigado por essa incrível experiência”.

Assim acabou a fase de grupos e nesse intervalo entre um jogo e outro, vivi a rua, a Fan Fest, a Vila Madalena e as muitas loucuras que conto um pouco aqui na parte II (em breve). Dividi apenas para que a leitura fique mais fácil e menos eterna.

Oitavas-de-final: Argentina x Suíça

Então vieram as oitavas-de-final e, com as classificações dos grupos, descobri que eu trabalharia no jogo entre Argentina e Suíça. Óbvio que fiquei ansiosa. Quem não queria ver um jogo dos hermanos? Eu não queria vê-los se dando bem nessa Copa, mas queria ter a experiência de conhecer a torcida deles e de ver Messi jogar. A rivalidade entre nós no futebol é, pra mim, imensa, queria sentir isso ao vivo. Mas eu sempre adorei o povo que sempre me recebeu tão bem em seu país. Seria uma festa e tanto!

E foi! A esmagadora maioria que chegava ao jogo era argentina. Eles uniram um pouco do que vi em torcidas sul-americanas e europeias (e nessa parte eles ficariam felizes de ler isso, já que acham que são os europeus da América Latina, rss). Bagunçam como nós, cantam, pulam, gritam, mas são geniais em fantasias, cartazes, bandeiras e acessórios. Dentro do estádio, diferente do que muitos disseram, não foi um apoio incondicional durante 90 minutos não. Talvez porque os brasileiros presentes, que também eram muitos, se empenharam em responder aos cantos a todo momento e conseguiram superar o volume deles. A briga entre “Brasil, decime que se siente” e “1000 gols, 1000 gols” foi acirrada, sem contar as brigas de verdade, algumas poucas. Para não deixar os suíços de lado, eles também foram criativos, mesmo que em pouca quantidade. Nunca imaginei que fosse vê-los cantando “Suíça, Suíça, ai se eu te pego” e nem que eles teriam uma musiquinha que só canta “olê, olê, chocolate”. As duas nacionalidades, de parabéns também pela beleza de seus torcedores.

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Semifinal: Argentina x Holanda

E então, o último jogo na Arena Corinthians foi Argentina e Holanda. Além da expectativa por um jogo disputado dentro de campo, tive a tensão de como seria encontrá-los um dia após a nossa fatídica eliminação. Foi duríssimo vê-los chegar felizes e ter que tirar forças de onde eu não tinha. Confesso que esperava mais zueiras diretamente comigo, que fico muito à vista dos torcedores que chegam, mas na real não foram tantas. Um bom dia com gestos de mão fazendo o número sete ou alguma letra de música que eu nem sempre entendia tudo o que dizia foi o que rolou. Ainda que tenha sido doloroso, as brincadeiras eram feitas sem direcionar a nenhum voluntário ou nenhuma ofensa pessoal. Obrigada pela compreensão.

Doído mesmo foi vê-los saírem fazendo uma festa do estádio. Meu desejo não era vê-los chorar, mas sim poder entrar no meio da roda e pular junto, cantar qualquer coisa junto por também estar feliz. Mas naquele dia não dava pra tirar felicidade de onde não tinha. Fiz meu trabalho, sorrindo sempre e também foi sensacional, mas vou lembrar sempre que poderia ter sido diferente. Os holandeses, dessa vez, eram uma quantidade menor do que estiveram presentes no jogo contra o Chile e foram ainda mais discretos. Primeiro porque os argentinos foram tão exaltados que era difícil que holandeses ganhassem espaço, depois porque na saída, os laranjas não estavam muito felizes.

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Enfim, celebrei o último dia na festa para os voluntários, lá mesmo, nos bastidores da Arena. Com um trabalho imensamente reconhecido pelos coordenadores, pelo COL e pela FIFA. Como voluntária, não há o que reclamar. São N fatores que me levam a dizer que a Copa mudou a minha vida. Nessa parte I, o que posso dizer é que engrandeci ainda mais a minha paixão pelo voluntariado, seja ele social, ambiental, educativo ou apenas de entretenimento. É lindo fazer algo que você vê, ali, na sua frente, a importância da sua presença em forma de agradecimentos, sorrisos e risadas. Senti também o poder de integração que o esporte tem, entendi isso de maneira ainda mais forte do que eu já imaginava. Ele une pessoas, quebra barreiras de idiomas, culturas, filosofias. E mais do que isso, vi que paixões, como a do futebol, nos fazem tirar qualquer máscara. Vi ali as pessoas de verdade, sem nenhuma necessidade de ser um personagem, de passar alguma impressão certa ou errada ou de aparentar algum estereótipo imposto. Eram eles, nus e crus, numa curtição louca. E eu era eu, aberta a todos eles.

Dos meus jogos na Arena Corinthians, vou levar cada torcida, cada musiquinha que aprendi – e foram muitas – cada presente que ganhei dos turistas, cada xaveco ou pedido de casamento que recebi, cada cara lindo que vi e me apaixonei, cada foto, cada setor em que trabalhei, cada imagem do campo, de dia e iluminado de noite, cada grito de gol, cada jogador importante que vi, cada voluntário que me ajudou, cada pessoa ilustre que recebi, cada palavra gringa que aprendi, cada noite sem dormir de ansiedade, cada frio na barriga no caminho ao estádio. Quero lembrar de tudo, tudo mesmo, pra não deixar isso acabar em mim nunca mais.

E para organizar uma Copa?

Eu mal comecei o meu trabalho como voluntária na Copa do Mundo 2014 e já tenho muito o que contar. Como disse, vou, aos poucos, compartilhando minha experiência por aqui durante esses tantos dias. Já de início, queria falar sobre duas coisas que me chamaram a atenção no sábado, dia do último treinamento de voluntários: detalhes da organização da Fifa e a Arena Corinthians como sede em São Paulo.

De fato, o clima para a Copa na capital paulista ainda não é o clima que esperávamos. Não sei bem o que será do nosso trânsito, do nosso transporte, da nossa segurança frente a vários protestos que acontecerão e muitos outros detalhes extra estádios. Porém, o que posso dizer é que das catracas para dentro, a Fifa promete algo incrível e absurdamente organizado. E olha que quem está falando é alguém que sempre acompanhou o futebol e sempre teve a entidade Fifa como algo a se olhar com desconfiança, com pés atrás. Eu não sei – e essa nem é a minha intenção – falar aqui sobre política do futebol, gastos públicos, lucros, nem nada disso. Não tenho acesso a nenhuma dessas informações. Falo exclusivamente do que tenho visto, como voluntária, na organização, na logística, na operacionalização de um mega evento esportivo.

Há um fluxo para cada ‘fucking’ ação lá dentro. Há uma resposta para cada possível problema, dúvida, ou situação que possa vir acontecer dentro dos estádios e que procedimentos tomar para solucionar. Há uma equipe responsável, formada por inúmeras pessoas, para cada setorzinho, cada área, cada função. E todos eles com um sorriso incrível para te atender. Há mapas, diagramas, Q&As, de coisas que eu nem imaginaria. São detalhes tão pequenos que vão montando, pecinha por pecinha, o maior evento do mundo. Desde a organização de mais de 1200 voluntários só em São Paulo, até o teste de um único microfone. Ainda que o tal “padrão Fifa” tenha virado quase uma chacota nos últimos meses, o padrão Fifa colocado em prática na preparação do evento é dos mais rigorosos. E tudo isso com o intuito de que a experiência proporcionada ali dentro seja a melhor, mais tranquila e mais inesquecível possível. Estou prestes a me convencer de que, dentro do estádio, sim, será a mais inesquecível.

E nossa Arena Corinthians faz parte disso. Ainda que os últimos ajustes sejam aos 45 minutos do segundo tempo, o estádio está deslumbrantemente lindo. Por fora, por dentro, e por muito dentro, nas salas de coletiva de imprensa, vestiários, corredores, áreas de circulação. Isso tudo já sabemos e cansamos de ler por aí. Mas sempre bom repetir como está, de fato, num nível muito acima de qualidade. No entanto, a minha imensa dúvida sempre foi quanto à localização. Transporte, arredores, acesso, tudo isso me era um ponto de interrogação ainda. Hoje, o que posso dizer é que me parece ter sido uma boa escolha.

O espaço que temos para convivência entre torcedores, para chegada ao estádio, para a curtição do pré e pós jogo, interações com stands de patrocinadores e tudo mais é gigantesco. Clubismos à parte – juro que estou tentando – não consigo imaginar isso acontecendo no Morumbi sem a necessidade de imensas e caras obras em diversas ruas e casas do bairro ao redor do local. E todo esse espaço que temos em Itaquera também facilitou para que se pensasse acesso de imprensa, de estacionamento para deficientes, para chegada e saída de cada setor, para espaços VIPs. Os mapas para tudo isso são inúmeros. A Arena Corinthians é linda, mas para a Copa, não bastava apenas uma modernidade, uma cobertura, ou um aumento de lugares. Era preciso mais e, de novo, o que minha percepção diz é que acertamos nisso.

O que me deixa um pouco inquieta com tudo isso é perceber que sempre tivemos a faca e o queijo na mão para fazer tudo espetacular. E será espetacular. Mas talvez um pouco corrido. O jeitinho brasileiro de “no final tudo sai”, sabe? É nítido, seja na Arena, nos arredores, na cidade como um todo, que um pouco mais de tempo e planejamento seria perfeito. Tivemos esse tempo, só não aproveitamos como podia nem planejamos como devia. Capacidade jamais faltou.

Independente de tudo isso, o balanço até agora me faz dizer: Vai ter Copa sim. E, com correria ou não, vai ser incrível! Exatamente como estamos tanto esperando!

Foi na voz dele

Eu estou há dias tentando escrever sobre alguns assuntos que estão na minha cabeça, como a proibição da Rachel Sheherazade de emitir sua opinião e a polêmica da Petrobrás, mas hoje, por um motivo especial, resolvi falar sobre aquilo que, apesar de não ser a minha profissão e talvez nunca seja, eu tenho como verdadeira paixão: o esporte e o jornalismo esportivo.

Ainda que sejam porcamente feitos no Brasil, com pouco apoio e investimento, um jornalismo tendencioso e vários outros defeitos, há verdadeiros mitos trabalhando por aí. Tanto como atletas como jornalistas. E hoje, um deles, Luciano do Valle, sai de campo pra ir pra nossa memória.

Não pretendo falar da atuação dele como jornalista, locutor, nem nada disso. Isso, deixo para quem tem expertise para avaliar fazer. Falo como fã de esporte, porque eu aposto aqui todas as minhas fichas que qualquer brasileiro já foi atingido por suas narrações de alguma maneira. Você não gosta de futebol? Tudo bem, você também já foi tocado.

Hélio Castroneves, Gil de Ferran, Tony Kanaan, Emerson Fittipaldi, Magic Paula, Hortência, Janeth, Oscar, Ana Moser, Virna, Leila Barros, Fofão, Giovane, Giba, Maurício, Maguila e tantos que eu, sem dúvida alguma, esqueci. Você já ouviu algum desses nomes? Claro que já, e provavelmente não foi da boca de Galvão Bueno.

Se você, mesmo não tão enlouquecido com esportes como eu, se lembra da nossa seleção feminina de basquete vencendo uma medalha de ouro com Magic Paula e Hortência no Pan, se se emocionou, essa emoção veio da voz dele. Se você chegou a ver seu pai, irmão ou alguém vendo lutas do icônico Maguila, você não deve se lembrar, mas também foi na voz dele. Se você se lembra da Bandeirantes como “Bandeirantes, o canal do esporte”, foi pela voz dele.

Você talvez nunca assistiu uma partida se quer de Fórmula Indy, mas já ouviu alguma frase como “Não perde mais, Tony Kanaan”, repetida na voz dele, criada pelo outro mito Téo José. E os incansáveis rallys das nossas meninas contra as cubanas, nos jogos de vôlei? Ou dos meninos contra os EUA? Você ouviu ponto a ponto na voz dele. Quando o assunto é futebol, caberiam mais páginas de texto, mas fico apenas com os dois Mundiais do meu querido Corinthians. O único a ter esse feito. Na voz dele.

lucianoVocê pode não ser fã de esporte, não saber nomes de jornalistas, não lembrar de datas ou campeonatos ou momentos históricos de cor, mas tenho certeza que lembra de algum atleta. Que torceu em algum desses momentos só pela tensão ou por ser Brasil, ou porque era o que tinha na TV. Que viu algum parente torcendo. Ou que até mesmo foi tocado o suficiente para passar a ser fã de volêi ou basquete desde então. Uma voz que nos ensinou a torcer

O esporte brasileiro foi na voz dele. E não será mais daqui pra frente. Que o que foi criado em uma voz não seja destruído em um silêncio.